A CÚMBIA, O KUDURO E O AMOR LGBT NA COLUNA CALOOR FM DESSA SEMANA

A Cúmbia, o Kuduro e o Amor LGBT

por @Patricktor4

Sintoniza aqui, que tem mais uma atualização da playlist CALOOR FM, recheada de novidades lançadas na última semana, misturando nomes brasileiros a argentinos e portugueses, para mostrar onde estamos inseridos.

Neste fim de semana, a nossa diva Pabllo Vittar nos presenteou com “Ama sofre chora”, um belíssimo encontro de pisadinha com sertanejo, tema mais dramático que romântico, trazendo uma reflexão sobre o machismo que permeia relações diversas de abandono e abuso, mas que fica ainda mais devastador num relacionamento LGBT. A música tem a interpretação impecável da Pabllo, em mais uma produção da Braba Music, assinada pelo DJ Gorky e pelo time afinadíssimo de compositores liderados por Pablo Bispo. É uma super estreia, das melhores da cantora, com um clipe bem legal, que vale ser conferido.

As temáticas abordadas na perspectiva de uma drag (como é o caso da Pabllo) – ou de uma pessoa trans, de um homem gay ou ainda uma mulher cis – trazem pra o pop nacional um debate importantíssimo sobre os papéis e as responsabilidades emocionais nas relações. Em meio ao entretenimento leve, o debate pode passar despercebido para muita gente privilegiada, mas a história reflete a vivência de várias pessoas e gera identificação imediata para alguns. “Se você não quiser me assumir, eu vou gritar pra todo mundo ouvir”, colocando o joguinho do opressor numa berlinda.

O segundo destaque da playlist é também sobre pensar e repensar o papel do opressor, como vêm desconstruindo os portugueses do Bateu Matou (guardem esse nome!).

Lisboa ainda tem segredos. Até pouco tempo atrás, Bateu Matou era um deles. Desde 2018, o trio composto por Ivo Costa, Riot (ex-Buraka Som Sistema) e Quim Albergaria (PAUS) aparecia nos palcos da capital portuguesa como uma aventura para explorar o espaço entre o dj set e a percussão.

Antes do período das grandes navegações, a Península Ibérica já era repleta de etnias, costumes, cores e sabores. Para além da pandemia, Lisboa atualmente vive uma efervescência cultural muito interessante. Toda a gente que vem de todos os lugares para ali viver e a potência turística da capital mais ensolarada da Europa intensificam uma situação propícia para uma noite vibrante, repleta de clubes que pulsam as sonoridades originárias e urbanas das mais diversas regiões do mundo onde o idioma de Camões se fez presente.

Em momento algum esquecemos aqui do horror e do sangue derramado pela colonização e os traumas que isso causou em todos os envolvidos direta e indiretamente, bem como historicamente. Contudo, é perceptível a necessidade de diálogo que a juventude portuguesa busca com estas culturas e suas expressões, seus acentos e ritmos.

“Vou cair, levantar
Vou sair, vou tentar
Descobrir, encontrar
Destruir pra montar
Dividir, conquistar
E em mim apostar”

Neste contexto, o rap, as rimas e as batidas são o vetor mais significativo da construção destas pontes. E, deste caldo amargo e vigoroso, surge a potência sonora do trio Bateu Matou. Na faixa com o MC Papillon (que também canta com Emicida, Eminência Parda), explode nos ouvidos um kuduro progressivo, cortado com breaks pulsantes e um flow violento, que quebra as estruturas de um passado oprimido abrindo as possibilidades de uma identidade plural tuga.

O kuduro angolano invadiu Portugal, assim como a cúmbia tomou a juventude da América Latina. Nesta atualização da playlist, a dupla Faauna nos apresenta a cumbia digital argentina.

Se o Brasil tem sérias dificuldades de se compreender latino, se conectar a isso através da música e, sobretudo, da cúmbia seria a melhor das saídas estratégicas. O duo argentino, formado hoje por Cristian del Nigro e Estefi Spark, já passou por algumas formações diferentes, mas começou em 2003 com essa conexão entre a super popular cumbia villera, com as estruturas de hiphop, os baixos pesados de dub e timbragens de teclados mais ácidas, levando para a cena alternativa, indie e pop uma sonoridade completamente nova e instigante.

Junto a Faauna, outros grupos, duplas e djs/produtores criaram uma cena musical das mais pulsantes do mundo, tendo a cumbia como base e acrescentando a ela uma imensidão de referências e influências. São nomes como Chancha Via Circuito, El Remolon, Villa Diamante, King Coya, Lagartijeando, Las Kumbia Queers, entre outros, que movimentaram a noite portenha e de outras grandes cidades argentinas, ao redor do selo de festas e lançamentos musicais Zizek, também conhecido como ZZK.

Neste lançamento de 2020, Faauna nos apresenta Tropicalypsis Now, o quarto álbum deles que mostra a maturidade dos produtores, explorando mais possibilidades para a cumbia digital argentina.

Fechando as novidades da playlist desta semana, temos o ótimo colab do MC Rashid com Chico César e o DJ Caique; a estreia da cantora Thaiis; o mais novo trabalho solo do hermano Rodrigo Amarante; o encontro delicioso de Saulo Duarte e Luedji Luna; a  parceria inusitada do Diogo Nogueira com a Mahmundi; o piano descolonizado e incrivelmente afrocentrado de Amaro Freitas; e, por fim, o projeto Okalonam, com a interpretação de Lirinha do Cordel do Fogo encantado. Enfim, vale seguir a playlist e vale cada play.

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