A RETOMADA DO VINIL E O AUMENTO DAS VENDAS DURANTE A PANDEMIA

Apesar do consumo de música através das plataformas digitais ser incontestavelmente a forma mais popular de se ouvir música (e também a mais rentável), nos últimos anos o disco de vinil tem ganhado força como o principal formato físico para o consumo de música. Segundo dados publicados recentemente pela revista Billboard, os vinis responderam por 26% das vendas de todos os álbuns em formatos físicos nos Estados Unidos em 2019. Na Inglaterra os números também foram animadores, com 4,3 milhões de LPs vendidos, o que representou uma alta de 4,1% em relação ao ano anterior.

No Brasil não existe uma estimativa oficial sobre as vendas de LPs, mas sabemos que houve um ligeiro aquecimento no ano passado. O Produtor Pena Schmidt, que também faz parte do Conselho Consultivo da SIM São Paulo, acredita que a alta nas vendas de vinil é algo natural: “Essa tendência já existe há muito tempo. A retomada do vinil como mídia para música já acontece há pelo menos duas décadas, é um crescimento constante. Logo veremos muitas lojas novas de vinil por aí, isso já está acontecendo”.

Com a chegada da pandemia e o fechamento do comércio, houve grande preocupação por parte dos selos, lojas e fábricas de vinil, já que ninguém sabia o que viria pela frente. Felizmente, após poucas semanas as vendas aumentaram e os temores foram deixados de lado.

Rafael Cortez, fundador do selo Assustado Discos, conta que no início da pandemia as lojas bloquearam os pedidos, e que durante algumas semanas ficou bem aflito. “Sempre trabalhei diretamente com lojistas, mas isso mudou bastante. Passei a trabalhar também com venda direta e nunca vendi tantos LPs.” Ele conta ainda que, com a reabertura das lojas, o mercado continua aquecido e hoje os lojistas vão até ele para repor estoque. “Os 33 títulos que lancei estão quase esgotados, hoje não tenho mais do que 20 cópias de cada um”. Rafael também faz parte do coletivo 3 selos, que junto do Goma Gringa e o EAEO Records tem um clube de assinaturas de vinil. “Em maio e junho batemos nosso recorde de vendas. Acabamos lançar uma reedição do Guentando a Ôia do Mundo Livre S/A e em apenas 72 horas já vendemos mais de 80% da tiragem”, comenta.

As duas grandes fábricas de vinil no Brasil, Polysom (RJ) e Vinil Brasil (SP), confirmam o crescimento. “Notamos um aumento bem significativo no volume de produção, logo após a retomada das atividades da fábrica em maio, depois de quase 50 dias parados por conta da pandemia. O crescimento ocorreu tanto na venda do catálogo (títulos licenciados pelas gravadoras), quanto nas encomendas de fabricação direta, feitas na grande maioria por independentes”, diz Luciano Barreira, gerente da Polysom. “Apuramos um aumento de aproximadamente 45% nas vendas do catálogo, na comparação com o mesmo período do ano passado (só foram analisados os meses em que a Polysom funcionou durante a pandemia, no caso, maio até agosto – último fechamento). Vale ressaltar que, esses são dados da Polysom, não do mercado todo”, completa Luciano.

Outra fábrica que vê com otimismo os números é a Vinil Brasil. Seu fundador, Michel Nath, constatou um aumento principalmente nos meses de agosto de setembro. “Tenho acompanhado muito isso, todos com quem converso, que têm lojas online, confirmam que as vendas estão ótimas e a procura em nossa fábrica aumentou significativamente, praticamente dobrou, o que nos deixa esperançosos com esse segundo semestre. Quem sabe a gente dá um gás para recuperar os meses de instabilidade e o tempo parado. Todos os dias recebemos pedidos de orçamento, isso não para. A procura tem subido”.

Walter Thiago, dono da loja London Calling, com 34 anos de existência e pioneira em comércio de discos online no Brasil, também afirma que as vendas dobraram. A única dificuldade desde a reabertura, no último dia 11, tem sido manter todos os títulos disponíveis. “A procura aumentou tanto, que já está faltando disco em nosso estoque. Ficamos surpresos. E as vendas presenciais também aumentaram muito, estamos até parcelando algumas compras grandes de clientes mais antigos”, conta.  

As vendas online da Locomotiva Discos também subiram, porém, com as limitações de horários e condições impostas pela pandemia, esse sucesso não tem se refletido na loja física. Um dos proprietários, Marcio Custódio, que também promovia uma feira mensal de venda de vinil, confirma a informação: “Ficamos dois meses fechados e hoje abrimos em horário reduzido e atendendo somente um cliente por vez, o que dificulta o funcionamento da loja, mas mantemos todos os protocolos”.

Pena Schmidt lembra ainda que o mercado do vinil não é movido apenas por lançamentos. Há um enorme comércio promovido por feiras e sites de vendas de LPs usados e raridades para todos os gostos. “Eu diria que a maioria das coleções estão sendo feitas com vinis usados. O que comprova essa tese é um site, Discogs, que inclui discos do mundo todo, e o Brasil sempre aparece entre os cinco primeiros países em termos de negócios. Esse mercado existe e é grande”, diz Pena.

Mesmo diante de toda incerteza do futuro e dos rumos da economia, a impressão é que o mercado do vinil continua crescendo lentamente e se impondo como uma fatia importante do mercado musical, principalmente para os selos independentes. Para as grandes gravadoras ainda representa apenas uma pequena fatia do lucro.

“Acho que ainda é cedo para falar sobre o futuro, mas acho que deu uma fortalecida, é sempre um desafio. Já está faltando matéria prima para a fabricação de discos e com isso o custo aumentou e nos obrigou a fazer reajustes, mas mesmo assim as vendas continuam estáveis”, diz Rafael Cortes.

O vinil sempre foi visto como a mídia dos amantes de música, e essa relação talvez explique a procura crescente pelo formato. “Tem capa, contracapa, encarte, ficha técnica, e ali a coisa se verticaliza, exatamente o oposto de uma audição nas plataformas digitais. Tem uma riqueza de referências que traz uma profundidade à satisfação”, explica Pena Schmidt, que também vê o isolamento como fator determinante para o aumento das vendas no primeiro semestre do ano: “Vinil requer tempo, e isso está sobrando. Dá muito trabalho para botar um vinil para tocar enquanto lava a louça, ali você ouve o Spotify berrando nas caixinhas que está tudo certo. E daí você se pergunta: O que vou fazer agora? Vou ouvir um disco, e aí sim você fica ali sentado, em frente ao toca-discos ouvindo a música de forma completa”.

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