D2 FALA SOBRE SEU DISCO MAIS COLABORATIVO: ASSIM TOCAM MEUS TAMBORES

Marcelo D2 sempre foi um artista inquieto. Desde os primeiros trabalhos com o Planet Hemp, ele sempre procurou novos caminhos e novas sonoridades. Em sua carreira solo, agregou ainda mais elementos, se aproximou do samba e conquistou o respeito dos fãs, da crítica e dos músicos, se firmando como um dos artistas mais criativos da cena musical brasileira.

Agora, ao completar 25 anos de carreira e em meio a um isolamento imposto pela Covid-19, Marcelo lança o oitavo disco, Assim Tocam Meus Tambores, cujo processo de criação foi transmitido integralmente pela plataforma Twitch.

 Em conversa com o portal SIM, Marcelo D2 fala sobre essa experiência e a importância da comunidade que ele criou e batizou de “As cria” no processo de composição desse trabalho.

Como foi o processo de gravação do álbum e qual importância de produzir e lançar um álbum nesse momento tão conturbado?

D2: Esse disco me tirou da depressão. Eu estava preocupado com a incerteza do futuro, pensando quando tudo voltaria ao normal, se é que vai, como pagaria as contas, me perguntava o que iria fazer com a minha vida. Tentei lançar o disco do Planet, mas isso só piorou, já estava em fase de finalização quando tudo parou, não consegui mais encontrar os caras. Mas quero lançar esse disco ainda este ano.

 Veio então o convite da Twitch. Eu achei que o caminho natural seria fazer algo relacionado a arte. Eu e minha esposa fazemos uma live às segundas falando de artes plásticas. Fiz outra cozinhando e a Quarta às 20, onde falo de maconha com médicos, advogados, delegados, políticos. Mas tudo isso não estava me satisfazendo, queria algo diferente e então tive essa ideia.

Comecei pensando em um festival online, minha esposa é produtora e um dia me disse que isso poderia ser um manifesto de lançamento do meu disco.

Daí criei um evento com a seguinte pergunta: “Você sabe como se faz um disco via live streaming? Não? Nem eu!! Mas, a partir desse sábado vamos descobrir isso juntos.” E assim aconteceu uma live com dez horas de transmissão e convidados que incluíram DJ Nuts, Zegon, Pathy de Jesus, Sacha Rudy e Gaslamp Killer.

Já no dia cinco abri a câmera, procurando beat, tentando organizar tudo. Todo dia de manhã eu fazia um vídeo em que eu falava sobre minhas influências, nada de música, mas sobre fotógrafos, cineastas, artistas plásticos, gente como Basquiat, Glen Friedman, Spike Jonze, Spike Lee. Falava sobre eles e terminava dizendo: Assim tocam meus tambores.

 Em que momento você percebeu as possibilidades de uma criação aberta e colaborativa?

D2: Quando fui convidado pelo Twitch, me disseram que o senso de comunidade lá era muito grande, e respondi que no Youtube e no Facebook também. Mas cara, quando cheguei lá, a primeira live que eu vi foi do Ganja, (Daniel Ganjaman), pra arrecadar grana pra equipe técnica do Criolo. Vi a galera no chat e entendi o senso de comunidade. Tive que entender que aquilo não é uma rede social, é uma plataforma de live streaming, me lembrou muito o que era o Myspace no começo, com todo mundo trocando informações. E quando encontrei as pessoas lá no chat, tipo Raul Machado, parecia que eu tinha ido em um bar trocar idéia com a galera. E ali pensei: Essa porra funciona, essa porra vai ser maneira, e assim começou uma comunidade, dos assinantes do canal que eu chamo “os cria.”

Você disse que após 25 anos de carreira, 22 dentro de uma major, descobriu caminhos mais interessantes. Quais as diferenças desse novo momento?

D2: É mais livre, ser dono do próprio disco é fundamental. Você sabe como é doída aquela relação com gravadora, pensar que o disco, o fonograma vai ficar nas mãos deles pro resto da vida. Só de saber que o disco fica nas minhas mãos e da minha família já me dá uma tranquilidade fodida.

 Estou com 52 anos, já passei por muita coisa no mundo da música, não sei nem se foi o caminho que escolhi, entrar para o mainstream, mas hoje, saber que eu tenho 5 mil pessoas ali, me dando suporte assinando o canal, super interessadas no meu trabalho, e comprando meu disco, pra mim é mais importante do que ter um milhão de pessoas passando pelo Youtube, que estão lá pra ver meu trabalho, da Anitta, do Capital Inicial. Aqui tem uma coisa de fidelidade e comprometimento foda. Tô me sentindo em uma parada punk pra caralho.

Como foi a relação com essa comunidade que você criou? Como eles contribuíram com o seu trabalho?

D2: Tive muita colaboração dos fãs. Escrevi uma música com chat liberado, na frente de todo mundo. No final não usei nada do que eles escreveram, mas teve uma interferência, com o processo criativo todo aberto é impossível não ser afetado pela opinião das outras pessoas.

  Por exemplo, teve um vídeo com uma contagem regressiva, e tinha um cara falando ladies and gentlemen… e a galera sugeriu que fosse em português. E um cara no chat falou que tinha umas paradas, e me mandou um disco com a gravação do homem chegando à lua, “um grande passo para a humanidade”.

 E quando eu tava procurando os beats, alguém me falou pra procurar o Jorge Dubman, baterista da banda Ifá, de Salvador. E de repente ele apareceu na live e me passou o telefone no chat. Liguei pra ele ali, ao vivo mesmo, ele me falou que tinha uns beats e isso acabou entrando em uma música.

 Quero fazer um diário porque teve muita coisa, reunião com meu advogado pra falar sobre direito autoral, uma conversa com o historiador Luiz Antônio Simas, que me contou um mito Bakongo, que diz que a divindade suprema, Zambi, estava cansado da criação, e só se alegrou ao ouvir o som do primeiro tambor, Ng’oma. E eles enxergam a criação como fruto dos tambores, uma história muito bonita. Escrevi um monólogo que foi lido pelo Criolo, e vai entrar no disco.

Você sentiu alguma dificuldade durante esse período de composição e gravação?

D2: O processo foi diferente de tudo o que eu já tinha feito. Mas foi exaustivo, quanto mais gente envolvida mais energia se troca e mais você gasta. Quem já fez um disco sabe como é. Agora, imagina um disco com 120 pessoas. Não foram só músicos convidados. Teve um coro que foi gravado por mais de setenta assinantes do meu canal. Foi o disco mais colaborativo que eu já fiz. Minha idéia inicial era fazer um EP, com seis faixas, mas fui me empolgando e no final virou o disco com dez músicas. Agora tô fudido com a burocracia, é muita gente, muitos contratos, mas tô feliz.

Essa parada me deixou muito entusiasmado. Sou dos anos 90, da época das rádios piratas. Tô me sentindo o rebelde, o transgressor, tenho uma TV na minha sala com a qual posso falar com as pessoas todos os dias

Você é uma pessoa de grande sensibilidade. Como foi lidar com esse ambiente colaborativo?  

D2: Fiquei tocado em vários momentos. Teve uma live incrível com o Mamão (baterista do Azymuth), chorei pra caralho, sou chorão e nesse momento estamos muito sensíveis.

Me sinto bobo, tô falando aquelas paradas que eu sempre achei estranho, dizendo pra galera vocês são maneiros, os fãs são tudo pra mim. Parecia bobo mas hoje falo que essa galera é foda. Eles que estão me dando suporte e fazendo a coisa acontecer.

E todo mundo topou participar das lives? Fazer tudo ali ao vivo?

Teve gente que participou do disco e preferiu gravar sozinho, sem expor os erros e acertos, mas eu não tenho problema, sou bem sem vergonha com isso.  Acho que o processo criativo já é parte da obra. Agora tô fazendo um filme aqui em casa, que eu chamo de disco pra ver. Acho o visual muito importante e todo esse pensamento é algo de vanguarda, revolucionário, a ponta de um iceberg de coisas que estão vindo por aí.

Como você avalia essa experiência, abriu novos caminhos? O futuro é digital?

D2: As coisas estão mudando muito, essa revolução digital é muito mais humana que a revolução industrial. A gente tá acostumado a ver o processo criativo em making of mas isso não funciona mais, as pessoas querem ver de verdade, querem ver ao vivo.

A relação com o músico vai mudar. Quem gosta de música gosta desse contato, da internet, das redes sociais.

A gente foi empurrado para um futuro, que é essa coisa de falar pelas lives, comunicando via internet. É um caminho que não tem mais volta, pra que ir de escritório em escritório, pra que dar uma conferência de imprensa se posso fazer tudo pela internet, pra que ir a um programa de TV, se eu tenho minha própria emissora. Como dizia Gil Scott-Heron, “a revolução não vai ser televisionada”, e acho que a gente poderia incluir: vai ser via live stream.

Diante de tanto acolhimento nesse trabalho, como você avalia o momento pelo qual passamos?

D2: Esse momento é difícil, o que a gente esperava era ver as pessoas se unindo por algo comum, que tivessem mais solidariedade, mas essa quarentena expõe um lado abominável.

O ideal nesse momento é procurar um lugar onde você se sinta confortável e seguro. Sou do tempo em que eu julgava as pessoas pela música que ela ouvia. Hoje quero procurar pessoas, que gostem do que eu gosto, criar essa comunidade que tenha proximidade com minha forma de ver a vida.

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