CIDA GONÇALVES: SOU GUIADA PELA SABEDORIA DE MEUS ANCESTRAIS

Cida Gonçalves conta com orgulho a história de desafios e vitórias que a levou a se tornar a produtora cultural conceituada no mercado que conhecemos hoje. A filha mais nova de sete irmãos cresceu na zona Leste de São Paulo. O pai, encadernador de livros da biblioteca municipal, e a mãe, servente numa escola, mantinham o ambiente vibrante e uma casa cheia de música. O pai tocava violão e acordeon e a mãe cantarolava o tempo todo.

“Considero minha família minha maior influência, aprendi muito com eles. Sempre fui curiosa e gosto de ouvir um pouco de tudo, descobrir novos artistas. A música negra é primordial na minha vida. Cresci ouvindo Gil, Milton Nascimento, Cartola, Djavan, samba com Paulinho da Viola, Martinho da Vila, D. Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Monarco, Caetano e muitos outros”.

Mais tarde, descobriu outras influências musicais importantes em sua vida, como o jazz de Nina Simone e outros nomes atuais como Emicida, Baco Exú do Blues, Criolo, Luedji Luna, Edgar, Elza Soares, Ben Jor, Mateus Aleluia, Lyniker, Josyara e muita gente que eu considero muito boa. Além dos artistas que eu trabalho como a Nega Duda, Zeferina, François Muleka, T. Kaçula, Madeira Mathula, Eva Figueiredo, Guilherme Kafé, Jota.pê, D’aguera, Deolindo, Jurema…

A origem humilde não impediu que Cida e os irmãos estudassem e se formassem. Ela se tornou publicitária com pós-graduação em marketing. Foi ainda na faculdade, que teve clareza do que queria para seu futuro. “A música é essencial e não vivo sem ela, então quando estava na faculdade pensava numa maneira de unir a música a um trabalho que me fizesse completa, feliz. Aos poucos fui descobrindo formas de concretizar isso. Com o trabalho de produção cultural eu consigo unir a música, a cultura negra e a minha vibe de vendedora , marqueteira raiz. Perfeito, eu não saberia fazer outra coisa com tanta felicidade e desenvoltura”.

Nos anos 90, criou um de seus primeiros projetos, “A Noite da Cultura Negra”, um evento de dança e gastronomia para ajudar um restaurante africano na região de Pinheiros. Foi numa dessas noites que conheceu o músico e DJ Théo Werneck, que, impressionado com o sucesso do evento, convidou Cida para produzir a banda Caboclada, de seu irmão, o também músico Márcio Werneck. “O trabalho fluiu superbem, acabei deixando meu trabalho formal e passei a produzir outras bandas. Conheci o Mattoli do Clube do Balanço que foi meu sócio por um tempo e fui produtora dele por 10 anos consecutivos. Em 2008 passei a cuidar sozinha da Casa do Batuque, ampliei meu casting que hoje tem cerca de 40 artistas de todos os ritmos e 90% pretos(as)”, conta. Aos poucos, foi se relacionando cada vez melhor com as instituições, estreitando contatos e fazendo conhecer seu trabalho e seu elenco: “Realizei em minha carreira projetos incríveis, turnê na Europa, produção na África, fizemos circuitos estaduais e municipais, projetos na Caixa Cultural, CCBB, Circuito SESC, FLIP e muitos outros. De 2015 a 2017 viajei pelo Brasil quase que sem descanso”.

O ano de 2020 prometia ser um grande sucesso, mas surpreendida pela pandemia do Covid-19, Cida se viu desafiada a se reinventar mais uma vez. “Com a pandemia a agenda foi cancelada, inclusive um Circuito SESC de Artes. Então no sentido profissional, foi um momento bem difícil que ainda estou superando.  Como mulher e negra, obviamente são muitas barreiras a enfrentar. Por mais que você se esforce tem sempre alguém pronto para te desqualificar ou simplesmente ignorar seus esforços e a qualidade de seu trabalho. Então eu mato não só um leão por dia, mas dezenas. E sempre foi assim. Me lembro que uma vez em 2017 fui fazer um projeto numa instituição em Curitiba e a gestora evitava falar comigo. Preferia contatar meu produtor locar que era branco. Mas eu me impus e ela teve que me atender. Então são muitos desafios nesse momento, mas agora, atualmente me sinto mais fortalecida para vencer todos eles”, diz.

O trabalho, mais uma vez, deu resultados. Cida fez mais de 30 lives de seus artistas nesse período e seis pessoais, falando de sua experiência em produção cultural. “Quando os editais do PROAC e Lei Aldir Blanc abriram também inscrevi vários projetos. Seis foram aprovados, inclusive o de 1ª Edição de apoio à cultura negra, que estou fazendo com o Samba de roda Nega Duda que é um dos carros chefes da minha produtora”, comemora.

Outra parceria de sucesso de Cida é com a SIM São Paulo. “Costumo dizer que a SIM é uma divisora de águas em minha vida. Tenho uma relação de profundo respeito, afeto e principalmente gratidão. Frequento a SIM há anos e sempre fico animada quando chega a hora, pois organizo minha agenda para participar de workshops, ver shows, participar dos speed meetings, enfim, quero participar de tudo e me tornar 03 ou 04 pessoas para não perder nada. Fico maluca. Adoro a energia, conhecer outras pessoas, aprender mais e me relacionar com as pessoas incríveis que participam”.

Neste ano, na edição virtual da SIM, Cida participou com dois showcases, de Madeira Mathula e François Muleka, e fez parte do painel TRATORE APRESENTA: Desvendando o mercado brasileiro da música – tudo o que você precisa saber para se preparar para 2021. Episódio 4: um novo mercado de música ao vivo no Brasil, ao lado de Pena Schmidt e a Juli Baldi. “A edição virtual da SIM não deixou nada a desejar, super profissional, deu tudo certo. As entrevistas foram muito produtivas, fiz contatos especialíssimos e que já estão rendendo frutos. Então a SIM para mim é o evento que eu mais respeito e admiro pela organização e competência. A equipe é qualificada e um povo que dá vontade de correr e abraçar. E o principal é que as diversidades são muito respeitadas e tem lugar de destaque. Em nenhum outro evento de música que eu conheço teríamos esse espaço que a SIM proporciona”, avalia.

Perguntada sobre seus planos para o futuro, Cida responde invocando sua ancestralidade: “Existe um Adinkra  (símbolo gráfico) africano que pode dizer melhor que mil palavras. É o ‘Sankofa’. Sankofa significa ‘volte e pegue o que importa’. Quer dizer que é importante para todos voltar ao passado para aprender lições que a vida nos deu, a fim de usa-las com sabedoria no presente. Então eu pretendo seguir guiada pela sabedoria e proteção de meus  ancestrais, ter relações mais empáticas e saudáveis e  enxergar os desafios da  pandemia como um aprendizado constante. Seguindo em frente”.

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