CLAUDIA ASSEF É A PRIMEIRA CONVIDADA DA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

A BÊBADA, A NERD, A FAXINEIRA, A JANE FONDA E AS LIVES MUSICAIS

Por Claudia Assef

Gente, eu tenho que confessar uma coisa. Tenho saudade do início da pandemia. Naquela primeira semana em que nos internamos em casa para fugir do Covid, não tínhamos ideia do que viria pela frente. Éramos um bando de gente assustada, mas inocente, jurando que em duas semanas trancada em casa estaria tudo resolvido.

E o que fazer em duas semanas de espera? Arrumar armários e gavetas, ouvir discos inteiros (no repeat) enquanto entornávamos hectolitros de vinho chileno na promoção, começar um curso de meditação com a Monja Cohen, incorporar a Jane Fonda interior,  malhar com garrafas pet improvisadas de halteres, fazer faxinas até deixar a lâmpada do lustre brilhando? Sim. E tudo isso sem perder o horário nobre do dia, o das 20h, hora de ir pra janela e gritar FORA BOLSONARO com as crianças penduradas no seu pescoço, ato que se consagrou como o ápice da jornada e ganhou requintes, como o MP3 com som de panelaço que começou a circular no Whatsapp.

Nessas duas semanas iniciais, em que me fechei como uma ostra em meu pequeno mundo de quatro paredes, no qual me alternava entre os papéis de faxineira, professora, cozinheira, cronista, alcoólatra, cantora de karaokê, estudante, marombeira, entre outros que fui vestindo sem medo e sem vergonha, a música foi minha tábua de salvação. E tenho certeza, hoje olhando em retrospectiva e em pesquisas, que a música não salvou só a minha vida, mas a de quase todo mundo.

Nunca os serviços de streaming foram tão requisitados, e as lives, essa nossa mais nova velha amiga de infância, nos mantiveram minimamente sãos, olhando para as telas azuladas que viraram nossas janelas da alma.

Quando aquelas primeiras semanas passaram e fomos introjetando a real dimensão da devastação provocada pelo vírus chinês, veio a hora de entrar em luto. Luto pelas mortes ocorridas por causa da terrível doença, mas também luto pela percepção da castigante estiagem econômica que certamente viria pela frente. Acostumados a viver de aglomerações (quanto mais gente, melhor o evento), nós, seres que sobrevivemos da cadeia musical presencial, nos encolhemos em posição fetal pensando no tamanho do desastre que estava à nossa espreita.

Turnês canceladas, clubes e casas de shows fechadas, projetos postergados, patrocínios suspensos, isso sem falar no pânico geral instaurado (e legítimo) por conta da pandemia. O mundo virou de pernas pro ar e em questão de semanas era como se toda a nossa timeline tivesse se recriado para o universo digital. Com ou sem apoio de marcas (vamos combinar que a imensa maioria sem um tostão), artistas, produtores, jornalistas, managers passaram a se acotovelar no Instagram em busca de um lugar em nossos algoritmos, fosse procurando, quem sabe, uma nova forma de renda ou talvez apenas um jeito de não enlouquecer.

Entrou em pauta a saúde mental, para além da tríade álcool em gel, lavar as mãos e usar máscara. A sua saúde não era mais apenas pegar ou não corona vírus, era uma questão de viver sem pirar.

Eu tinha certeza de que a música (e além disso, as artes) era a saída. Um dia participei de um webinar que reunia produtores culturais diversos e o médico Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente de pesquisas do hospital Albert Einstein. Durante o talk ele disse uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: “Vocês que fazem música e festas, por favor, não parem! Vocês estão salvando a saúde mental das pessoas durante a pandemia”.

Essa fala do doutor me aqueceu o coração. E me deu vontade de abraçar (se bem que abraçar não pega bem na pandemia) cada artista e divulgar cada live com gosto! Hoje, quase 8 meses depois do início da quarentena, as lives podem até ter virado carne de vaca e hoje já não atraem mais tanto as marcas. Mas pode escrever aí, para além da coincidência do seu significado, as lives salvaram muitas vidas nesta pandemia. Ajude, apoie, divulgue seu artista favorito.

Claudia Assef é jornalista, editora do site Music Non Stop, diretora do Women’s Music Event e do WME Awards.

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Comentários

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  1. Quero favoritar esse texto; imprimir; colar no teto do quarto para ler todas as noites antes de dormir.
    Que maravilha foi ler isso <3 <3 <3

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