CONHEÇA A DIVERSIDADE E O ATIVISMO DA MÚSICA INDÍGENA CONTEMPORÂNEA

A cultura indígena é complexa e diversa, e talvez por isso pareça algo incompreensível em sua totalidade, e talvez seja. Principalmente para uma sociedade que ainda tem um olhar carregado de estereótipos, uma visão colonialista e ultrapassada.

De acordo com o censo 2010, o Brasil tem pouco mais de 800 mil pessoas que se declaram indígenas, distribuídos em 225 povos e quase 60% vivem em áreas rurais ou em aldeias, o que mostra o apego e a importância da terra em suas vidas, um assunto recorrente entre os artistas da nova música indígena.

Na edição do ano passado a SIM São Paulo promoveu uma mesa de discussão com o tema Música Indígena Contemporânea do Brasil e da América Latina, com mediação do DJ e produtor cultural PatrickTor4 e participação da rapper Brisa Flow, do radialista Marcos Julio Aguiar, Anapuaka Muniz Tupinambá, curadora do festival YBY, e o músico argentino Diego Perez.

Nos últimos anos esses artistas, em sua maioria jovens que reafirmam sua identidade através de sua arte, começaram a chamar a atenção pela qualidade de suas músicas, mas ainda sofrem com a falta de representatividade no cenário musical brasileiro. “O maior desafio para esses artistas tem sido divulgar seus trabalhos e o desconhecimento das pessoas sobre a música indígena contemporânea. Existe ainda muito preconceito no setor musical e falta de reconhecimento destes músicos”, afirma Renata Tubinambá, jornalista, cofundadora da primeira rádio indígena do Brasil, Yandê, e curadora do Festival de Música Indígena Contemporânea (YBY), que reuniu 14 artistas em sua primeira edição no final do ano passado em São Paulo.

Xondaro MC, rapper e fundador de um dos primeiros grupos de rap nativo, OZ Guarani, diz que enfrentou muitas dificuldades: “Em 2014 teve uma reintegração de posse da aldeia, e ninguém da mídia apareceu. Daí surgiu a idéia de formar o grupo pra falar de demarcação, da invasão, do desrespeito e do preconceito. E a gente chamou a atenção a mídia apareceu e revertemos a reintegração, e daí o grupo continuou e estamos juntos há cinco anos. Até hoje é difícil conseguir apoio quando se fala em questões de luta. Ainda existe preconceito com os indígenas. No início da carreira foi bem complicado, ninguém nunca tinha ouvido falar da gente, e o acesso à internet aqui na aldeia não é bom, precisamos sair. Hoje fazemos shows até fora de São Paulo, mas no começo tivemos até que pegar dinheiro emprestado pra ir para alguns rolês.”

O rapper Kunumi, um dos nomes mais comentados dessa geração, também conta que no início enfrentou dificuldades “O começo foi muito difícil divulgar nosso trabalho, a imprensa não se importava com a gente, parecia besteira pra eles, mas para nós essa música cantada pelos povos indígenas é uma missão, de levar mensagem para o povo da cidade, quando cantamos fazemos isso com muita fé e esperança de que tudo possa melhorar porque sofremos desde 1500 com a invasão e o roubo das terras que é nossa e hoje queremos apenas um pedacinho para viver”

A cantora Brisa Flow, um dos principais nomes da música indígena contemporânea, comenta ainda que muitas vezes ainda tem que lidar com idéias pré concebidas, “Ter um corpo indígena não significa que eu vá ter atitude de pajé ou de cacique, mas quando a gente vai se apresentar trazendo uma outra proposta, como rap ou mpb,as pessoas esperam o que está dentro desse estereótipo”.

Mas ao que tudo indica esse comportamento deve mudar, principalmente porque a qualidade musical dessa nova cena tem falado mais alto, e com o amadurecimento cada artista ganha seu espaço, reafirma seu estilo e se coloca de uma maneira mais adequada. Embora muitos temas sejam comuns em suas letras, há uma diferença clara entre o trabalho de artistas que ainda vivem em aldeias, como por exemplo o rapper Kunumi, ou o duo Oz Guarani, com quem vive em um ambiente urbano, como a própria Brisa Flow, cujo trabalho é mais identificado com o movimento do Futurismo Indígena, um termo que apesar de muito usado, ainda é pouco compreendido e recentemente tem gerado muitas discussões

“Eu acho que esse termo tem um começo em uma tradição futurística cultural e artística, sempre foi um movimento muito academicista. A partir do momento que esses acadêmicos começam a observar a arte como uma ferramenta decolonial, que as esculturas e nossas artes já contavam a nossa história por si só e que não precisaríamos ser estudados por europeus, esse movimento começa a se juntar com a arte. E no norte do continente que a gente vive, outros povos originários começaram a pintar quadros em que imaginavam um novo mundo, e o futurismo indígena começa a ser criado. E tem a questão da tecnologia também, como usar a favor dos povos indígenas.O futurismo indígena é uma forma de não deixar o sentimento dos  povos originários morrer no passado, como uma tentativa de dizer que não existem mais.” diz Brisa Flow, mas ele também acha que esse termo deve ser usado com cautela: “Gosto do termo no pela ideia de nos manter para além do passado mas não gosto muito dessa ideia de nos colocar  em um local de pessoas que acabam fazendo mais alianças com ideias que já existem.”

O Rapper Kunumi, que viveu e cresceu em aldeia, prefere chamar sua música de rap nativo: “Como escritor falei sobre que eu sei, aquilo que vejo, vivo e sinto, então comecei desde cedo a escrever histórias nativas, contando como é nosso modo de vida, e no rap não é diferente, falo sobre aquilo que eu sei, e não sobre outro povo isso seria rap indígena, tem uma diferença. Eu, o Brô MCs e o Oz Guarani não estudamos nada, falamos apenas a verdade do que a gente vive, cada um falando sobre sua cultura, não posso falar do que não sei, só dos meus costumes, minha aldeia. Em meu rap eu rezo, mas ao mesmo tempo conto essa história, de 1500 pra cá. Muita gente fala de futurismo indígena, mas o indígena mesmo, pra viver e ser forte no presente lembra das histórias antigas, contadas pelos antepassados, pelos curandeiros, mas não é uma história feita do agora, é algo milenar, ali está todo o nosso modo de vida pra viver o presente. A gente pensa no passado pra viver o presente e o futuro a gente deixa nas mãos de Deus.”

A música indígena contemporânea é múltipla, com várias nuances, vários estilos e diferentes gêneros musicais, Renata Tupinambá da rádio Yandê dá alguns exemplos: “Tem o funk do Nory Kayapo e o forró do Mokuka Kayapo. Os rappers Bro Mc’s, Oz Guarani, Sallú Kuikuro, Matsi Waura Txucarramãe, Wera MC.  Gean Ramos Pankararu na MPB indigena, e Wakay na tradicional fusões de contemporâneas. Dayu Puyanawa, Mulheres Huni Kuin, Márcia Kambeba, Djuena Tikuna e muitos outros.” E além dos estilos também há a diversidade da língua, com músicas cantadas em português, Kayapó e Guarani, com uma variedade de temas que vão desde músicas de protesto até canções românticas e espirituais.

O espaço para a música indígena aos poucos tem aumentado. Kunumi gravou uma música com o Criolo, Brisa Flow já é um nome conhecido, Djuena Tikuna foi a primeira indígena a protagonizar um espetáculo musical no Teatro Amazonas, mas ainda há um longo caminho para que esses músicos sejam reconhecidos por seu talento e possam chegar ao mainstream. Esperamos que isso seja possível, pois além da necessidade de um protagonismo indígena na música, essas canções trazem amor, sinceridade e paixão como há muito tempo não vemos em nossa música.

Preparamos uma playlist com os artistas citados na matéria para quem quiser conhecer essa cena tão rica e diversa.

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Categorias:

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

+ SIM NEWS

pt_BRPortuguês do Brasil
en_USEnglish pt_BRPortuguês do Brasil