MUSICIANS WITHOUT BORDERS: A GUERRA DIVIDE, A MÚSICA CONECTA

Antes de falar sobre a ONG Musicians Without Borders, vale falar um pouco da história de sua fundadora, Laura Hassler. Filha de pacifistas, cresceu em uma comunidade criada por seus pais, próxima a Nova York e habitada por ativistas, artistas e músicos, em um ambiente onde toda a diversidade era respeitada, as crianças aprendiam música e cresceram ouvindo histórias sobre direitos civis, movimentos anti-apartheid e como a música é um instrumento poderoso para conectar as pessoas. Após morar em diversos países, Laura se radicou na Holanda, onde construiu uma carreira como diretora de coral e organizadora cultural, sempre usando a música como instrumento de inclusão social e diversidade cultural. “Em 1999, quando solicitada a produzir um concerto anual em memória da Segunda Guerra Mundial, Laura optou por executar canções tradicionais dos Balcãs, chamando a atenção para as vítimas das guerras sangrentas que estavam acontecendo na Europa naquele exato momento”, conta Eefje Wevers, da equipe de comunicação da ONG. O impacto dessa apresentação foi tão grande, que após um pequeno silêncio, a platéia aplaudiu por mais de vinte minutos e ali Laura percebeu que poderia usar o poder de conexão da música para a reconciliação e curar as feridas causadas pela guerra.

 

Laura então procurou organizações ligadas aos direitos humanos, entrou em contato com músicos socialmente engajados e em menos de um ano o Musicians Without Borders estava em atividade e já havia feito duas turnês pelos países dos Balcãs do pós-guerra, conectando músicos e organizações locais. Eles também realizaram apresentações para os refugiados de Kosovo que foram acolhidos na Holanda, além de promover atividades junto a crianças e doações aos músicos que perderam seus instrumentos durante a guerra.

Logo veio o primeiro projeto de longo prazo da MWB, o Music Bus, que aconteceu no leste da Bósnia destruída pela guerra, levando música, dança e teatro para crianças em Srebrenica e campos de refugiados. Com o sucesso dessa ação, Musicians Without Borders foi convidado para conferências e eventos culturais em Kosovo e na Palestina, que mais tarde levariam a grandes programas de longo prazo: a Mitrovica Rock School e o Palestine Community Music.

 

“A guerra e os conflitos armados deixam para trás traumas e sentimentos de perda, raiva e pesar, tanto no nível individual quanto coletivo. As pessoas freqüentemente permanecem temerosas, isoladas e separadas das outras, e são reduzidas àquela parte de sua identidade que as definiu no contexto do conflito: seja étnico, religioso, racial, histórico – ou simplesmente como uma vítima. Essa mentalidade pode ser passada de geração em geração, mesmo muito depois de uma guerra ou conflito específico ter terminado oficialmente”, comenta Eefje. “A música pode ajudar as pessoas a redescobrir sua identidade complexa, permitindo uma reconexão com outras pessoas por meio de experiências positivas compartilhadas. A música pode fornecer uma forma de desenvolver criatividade e talento, processar experiências e sentimentos negativos de uma forma não ameaçadora e construir conexões entre pessoas em comunidades divididas. Esses são elementos essenciais da construção da paz que podem ajudar a transformar relacionamentos e redefinir comunidades”, conclui.

Hoje a MWB opera em vários países, através de estreitas colaborações com músicos de todo o mundo e organizações parceiras, Os projetos são avaliados para saber se encaixam na missão e na experiência da MWB, e que possam ser realizados de maneira a garantir sustentabilidade e a apropriação local. Várias ações já aconteceram na América Latina, incluindo o projeto Soy Música, em El Salvador, uma parceria com a Unicef e o governo local, que treinam professores e educadores para usar a música como estímulo à criatividade, coesão social, e promover uma cultura de não violência. No México a MWB está colaborando com a organização CCompaz, em um programa de proteção as crianças e jovens dos impactos da violência extrema às quais são expostas em seu cotidiano. Laura Hassler também já participou de conferências organizadas pela Fundación Batuta, da Colômbia, e em 2018 esteve em São Paulo, participando de um evento promovido pelo Projeto Guri.

Com a chegada da pandemia e a impossibilidade das viagens, muitos projetos tiveram que ser repensados e transformados em ações online. “Agora, mais do que nunca, as pessoas em comunidades afetadas por conflitos precisam de música para se manterem conectadas em um momento em que estamos todos inesperadamente isolados. Estamos fazendo tudo o que podemos para que isso aconteça” Diz Eefje.

Quando perguntada sobre como contribuir com as ações da organização, Eefje sugere convidar Laura ou outros representantes MWB para falar em conferências ou plataformas em que as pessoas possam apoiar diretamente o trabalho por meio de doações ou organizando eventos de arrecadação de fundos em nome da organização, mas lembra algo fundamental: “Um papel ainda mais importante para as pessoas na comunidade musical é se tornarem elas próprias transformadoras, sabendo usar o poder da música para fortalecer os laços em sua comunidade, para construir resiliência e curar as feridas deixadas pelas questões globais que impactam o mundo de hoje”.

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