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CONHEÇA O COLETIVO IMUNE – INSTANTE DA MÚSICA NEGRA

Surgido em 2016 em Belo Horizonte, o Coletivo IMuNe é uma plataforma de criação artística que conecta artistas negros de todo o país, reconhecendo e fortalecendo sua presença no ecossistema da música. A idealizadora do projeto, Bia Nogueira, conta como surgiu essa iniciativa tão fundamental: “O IMuNe surgiu de uma maneira curiosa. Sou uma artista do teatro e da música, e depois de muitos anos, resolvi que queria gravar um disco, mas não me sentia representada. Quando eu vi que o cenário aqui em Belo horizonte não tinha pessoas como eu, mulheres negras, aprovadas nos editais públicos, que não estavam nos line-ups dos festivais, eu percebi que existia uma lacuna, e eu só vi isso por fazer parte de um coletivo de mulheres que fomentava a cena de compositoras, que é o Sonora, o mesmo que faz o festival e do qual eu sou uma das coordenadoras. Essa iniciativa que se espalhou pelo mundo foi uma provocação de uma conterrânea minha que é a Deh Mussulini. Acho importante falar isso porque as ideias não surgem do nada, elas têm lastro, então quando a Deh propôs essa Sonora, um festival só de compositoras mulheres, eu vi que o mesmo acontecia com a música preta e aí eu tive a ideia de fazer algo parecido. Logo tive um estalo do nome, que é o IMuNe (Instante da Música Negra), e coloquei esse nome assim, pendurado em meu espelho durante seis meses, durante os quais fiquei convidando muitos artistas pretos para fazer parte do projeto, mas nenhum deles pôde, podia, porque estavam fazendo muitos freelances. Artistas pretos têm que fazer correria pra sobreviver, né, porque eu acho que o racismo estrutural nos coloca nesse lugar”.

Decidida a continuar com o projeto, Bia pensou então que o jeito era ela mesma fazer um show. “Chamei minha banda, A Carta, para me acompanhar no Suricato, um espaço da prefeitura que recebe a música independente, e ali fiz o primeiro show dizendo que era o lançamento do IMuNe, instante da música negra. Quem foi nesse show e era artista e era preto, eu convidei para entrar no coletivo e assim acho que nove artistas toparam”, conta. Hoje o coletivo conta com seis integrantes: Cleópatra, Gui Ventura, Maíra Baldaia, Raphael Sales e Rodrigo Negão e apropria Bia Nogueira.

Pouco tempo depois, o IMuNe realizou uma mostra, aprovada a partir de um edital, e o resultado foi excelente. “Pra você ter uma ideia, tínhamos 12 vagas, se inscreveram mais de 80 artistas, muitos que a gente nunca tinha ouvido falar”, conta Bia. A partir dessa experiência ficou evidente que existiam muitos artistas pretos, o que faltava era espaço para suas apresentações. “Desde então o Imune tem essa ideia de fomentar a cena de artistas pretos, porque a música brasileira, se você for olhar muito detidamente, a música popular brasileira é uma música preta, mas geralmente quem consegue reconhecimento são os artistas brancos, então nosso intuito é dar visibilidade para esses artistas”, afirma.

Desde então o IMuNe vem ampliando suas ações, já produziu várias mostras na capital mineira, no interior e em outros estados. Uma delas, acontecida em Belo Horizonte, durou um ano. O coletivo também já realizou inúmeros debates com profissionais da música para discutir o sério problema do racismo na indústria musical. “A ideia do coletivo é fortalecer carreiras pretas. No início a gente era apenas uma mostra, mas aí a gente começou a perceber que existiam lacunas em várias etapas da cadeia produtiva, e começamos a atuar como uma espécie de agência, para as carreiras dos artistas que participam do coletivo”, conta Bia. “Somos também uma produtora que promove festivais e mostras e nesse ano a gente inaugura a semana da música preta. Estamos com uma atuação 360 graus, teremos cursos, workshops, oficinas, consultoria. Estamos pensando na formação dos artistas, de debates. Então se eu tivesse que resumir, diria que somos uma plataforma que atua em 360 graus”, conclui.

 E como a própria Bia reconhece, o projeto tem alcançado um grande êxito. “Conseguimos o patrocínio da Natura Musical para realizar o projeto nesse ano, da Cemig, então aos poucos conseguimos fazer um site com blog e temos uma novidade para 2021: vários escritores negros estarão presentes no blog do IMuNe, o editor chefe é o Marcos Fábio de Faria, meu parceiro, intelectual negro e pesquisador. Já tivemos apoio do SESC, temos parceiros importantes como o Grupo dos dez, a Associação Campos das Vertentes, que deram muito suporte e espaço, apoio da Estação Criativa, e da própria SIM São Paulo, que está nos dando um espaço muito importante  para falar sobre música preta e racismo nas artes. O que eu estou entendendo é que finalmente a sociedade, depois de muitas décadas de luta do movimento negro, está entendendo que o racismo é um problema da sociedade como um todo, não apenas de pretos e pretas então eu acho importante reiterar esses apoios, porque acredito muito que as pessoas não negras possam se aliar à nossa luta e facilitar nossa caminhada”. Nesse ano o projeto também foi contemplado com a Lei Aldir Blanc e, desde já, estão engajados na luta para que essa lei se torne permanente. “Apesar de toda tragédia humanitária que é a pandemia, e que é uma tragédia também pela irresponsabilidade desse governo, mais trágico até por isso, foi um ano de uma guinada importante para o coletivo IMuNe e espero que possamos beneficiar muitos artistas pretos e pretas desse país.”

Outra grande iniciativa do coletivo é o festival IMuNe, que neste ano, por conta da pandemia, foi realizado em um formato híbrido. “O festival  aconteceu online, mas também foi projetado em duas empenas de Belo Horizonte no centro da cidade e também no aglomerado da Serra, que é um aglomerado comunidades muito grande, no Centro Cultural  chamado Lá da Favelinha, de onde fizemos a transmissão do festival. Teve a presença de nossa rainha homenageada Elza Soares. Ao invés de fazer um festival nos moldes comuns, a gente pensou, já que somos três atores profissionais dentre os seis do coletivo e eu sou diretora, fizemos um espetáculo que tivesse a presença do Djonga atuando como umum Griô, um contador de histórias atemporal que linkava os vários shows.  Fizemos um espetáculo afroapocalíptico. Esse conceito é do Rodrigo Jerônimo, do Grupo dos dez, onde a gente argumenta que o mundo começou a acabar quando a primeira pessoa foi escravizada lá em 1500, e o que a gente está vivendo hoje é um reflexo dessa irracionalidade do capitalismo que sempre quer mais, um sistema baseado na exploração. Trouxemos então o Djonga como essa figura afroapocalíptica, esse Griô atemporal, que olha para o passado, que está no passado, presente e no futuro. O texto é do Marco Fabio de Farias, então a gente fez um espetáculo com os shows todos entrecortados por esse texto, essa reflexão, e com a presença também de um grupo de dança chamado Lá da Favelinha, e o primeiro show da Banda Imune dos seis artistas se apresentando como banda e que foram amadrinhados pela Elza Soares, foi muito bonito.”

Bia fala ainda sobre as dificuldades enfrentadas neste ano tão atípico por conta da pandemia do Covid-19, e como foi tomar a decisão de fazer o festival no mundo virtual: “Nós demoramos muito para tomar a decisão de fazer um festival online porque é muito difícil um projeto como o nosso conseguir aporte volumoso, então ficamos muito receosos sobre como gastar esse dinheiro, analisando muito as tendências de mercado, não só aqui como fora do Brasil também. Não paramos de trabalhar um segundo. Acho que assim como todos os trabalhadores de cultura, tivemos que nos reinventar. A lei Aldir Blanc demorou muito para sair, e isso transformou nosso trabalho em algo muito pesado, todo mundo ficou muito inseguro, então gerir um dinheiro que você não sabe se é o último foi muito doloroso, para colocar em termos mais pessoais, porque não é só trabalho, arte é nossa vida, eu vivo isso o tempo tinteiro. Agora tem uma promessa aí dessas execuções da Aldir Blanc, de uma luta para que ela seja uma política permanente. É bom dizer que essa lei não é uma concessão do governo, é resultado de muita luta do povo da cultura, de pressão desse povo junto a uma bancada mais progressista no congresso. Então acho que agora é a gente continuar executar, de ir para cima, exigir que essas políticas sejam permanentes e agora com um pouco mais de tranquilidade, garantir uma subsistência, porque artistas em geral, mas especialmente artista preto ia ter que largar a profissão e pegar um subemprego. Por mais que a lei tenha sido algo de última hora, muito dinheiro estava voltando para o governo federal, mas eu acho que agora é o momento de lutar para que ela seja colocada como uma política permanente”.

Quando perguntada sobre os planos para o futuro, Bia se mostra bastante otimista: “Estou muito feliz, acho que nosso trabalho não acabou, só aumentou. Online eu acho que é um pouco mais desgastante, mas eu estou otimista com o futuro, achando que nesse ano, apesar de tudo a gente pode ter muitas conquistas”.

“Na década de 70 a gente tinha arte no front de batalha contra a ditadura militar e nós voltamos a esse lugar de protagonizar essa luta, não estar só ali assistindo, e se eu tivesse que falar uma coisa boa sobre isso tudo, eu diria que finalmente nós voltamos para o nosso lugar que é o lugar de questionar as opressões, questionar esse mundo injusto, olhar para a realidade  olhar para além das cores, eu diria que isso é um saldo positivo, nós da cultura conseguimos ressignificar esse momento, precisamos nos juntar, nos unir e espero que esse momento seja o início de uma grande retomada contra o fascismo. Quando entendermos que os fazedores de cultura são trabalhadores e trabalhadoras como o restante do conjunto do povo brasileiro, a gente tem aí uma potência muito grande”, Bia diz.

E no final da entrevista Bia faz um apelo interessante: “Nosso objetivo no IMuNe é mapear essas iniciativas que fomentam a música produzida por pessoas negras no Brasil. A gente quer mapear e dialogar com essas outras iniciativas, então deixo aqui um apelo para produtores e produtoras pelo Brasil, que estão fazendo seu festival de música negra, que entrem em contato com a gente para a gente se fortalecer também, acho que o DNA do IMuNe é de cooperação, de solidariedade. A gente tem recebido muita ajuda e a gente também tem distribuído. Acredito muito que esse é o grande diferencial do IMuNe, a gente trabalha em rede real e distribui um pouco dos nossos acessos. Nossa ideia é puxar quem ainda não tem essas facilidades e redistribuir esse quinhão, acho que é importantíssimo outras iniciativas no país que tenham o mesmo objetivo e meu desejo, meu sonho é conhecer cada vez mais esses empreendimentos para gente ir se fortalecendo para que a indústria cultural e a grande mídia perceba a grande força dessa música e desses músicos pretos”.

Durante a edição 2020 da SIM São Paulo, Bia Nogueira falou sobre seu trabalho em uma interessante entrevista à Jup do Bairro, que está disponível no Expo Hall da Varanda Budweiser, aqui no portal da SIM. Lembrando que para assistir você deve adquirir uma assinatura da SIM Community, ou adquirir uma credencial Catch Up, com a qual você também tem acesso a todo o conteúdo da SIM São Paulo até o dia 31 de janeiro.

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