CONHEÇA O LENDÁRIO GUITARRISTA DO MC5 QUE PARTICIPA DE PAINEL NA SIM

Escrever sobre o MC5 em poucas linhas é uma tarefa difícil. São inúmeras as histórias protagonizadas por essa banda, que se tornou uma das mais celebradas e influentes de sua geração.

Formada em Detroit, em 1964, ficou conhecida como uma das bandas mais explosivas, radicais, baulhentas e controversas de sua época. Seu disco de estreia, Kick Out The Jams, lançado em 1969, continua sendo uma referência para músicos do mundo todo e é citado como uma influência determinante para o punk, que surgiria alguns anos depois, assim como para o movimento grunge, surgido nos anos 90 e até mesmo para algumas bandas de metal, que reconhecem a energia avassaladora do MC5.

Além do som pesado, dos shows com volume extremamente alto e caóticos inspirados pela vanguarda e free jazz, o MC5 ficou também conhecido por ser uma das primeiras bandas a assumir uma postura política radical, de esquerda. Oriundos de uma cidade repleta de sindicatos que lutavam por suas causas, era impossível não se envolver em questões políticas, e influenciados pelo escritor e ícone da contracultura, John Sinclair, que foi empresário da banda, eles nunca tiveram medo de expressar suas idéias e foram uma das primeiras bandas a protestar contra a guerra do Vietnã.

“Cresci em um tempo em que todo garoto era envolvido em questões sociais e políticas, eram os anos 60, a guerra do Vietnã politizou todo mundo, o governo obrigava você a se alistar, mandava você ir à guerra, matar pessoas e você poderia acabar morto. Minha geração jamais entendeu essa guerra. O fato é que o Vietnã nunca nos atacou, e a teoria de que outros países como o Camboja poderiam se juntar contra os Estados Unidos era ridícula, e falsa. A única razão era o petróleo que existia na região. E eu deveria matar por isso? Claro que não, essa experiência me trouxe um olhar radical”, diz Wayne Kramer, guitarrista do MC5, que completa: “Viver nos Estados Unidos nessa época e perceber injustiças como as sofridas pela população negra, totalmente destituída de seus direitos; eles não podiam nem votar, eram impedidos de ter protagonismo na sociedade, tinham que sentar no fundo dos ônibus. Ver pessoas sendo presas por dez anos por estar com dois baseados… essas coisas me fizeram olhar ao redor e questionar por que as coisas eram assim. A hipocrisia e as contradições eram maiores do que eu poderia suportar e percebi que tinha que agir e esse senso, essa atitude, continuou comigo durante toda minha vida”.

A fúria e o desejo progressista pregado pelo MC5 foram capturados no início do primeiro disco da banda, gravado ao vivo, no qual o vocalista Rob Tyner faz um discurso clamando pela revolução e termina com a icônica frase: “Kick out the jam motherfuckers!!”, a mesma que fez com que uma cadeia de lojas se recusasse a vender seus discos. A resposta veio em um anúncio de página inteira no jornal local, com uma resposta ainda mais agressive, e que culminou na expulsão da banda de sua gravadora, Elektra.

Mais de 5 décadas depois, esse disco é reconhecido como um dos mais importantes da história do rock, e mostra o quanto o discurso e as músicas da banda continuam atuais.

“Eu acho que isso tem a ver com a pureza e a inocência da juventude, éramos jovens, com 19, 20 anos, com muita certeza sobre o que queríamos fazer, estava certo em tudo o que eu estava fazendo”, diz Wayne Kramer. “A música do MC5 soube capturar seu tempo. Na arte você sempre tenta capturar a alegria, mas a mensagem do MC5 era diferente, falávamos sobre auto-afirmação, eficácia e que você pode fazer diferença no mundo se você se entregar totalmente. Mesmo que você esteja errado, mesmo que você cometa erros, você pode aprender com isso e mudar os rumos do mundo. Sinto como se aquele instante estivesse guardado em âmbar, no espaço, algo que viaja no tempo, e cada nova geração acaba conectando os pontos e voltando ao MC5 em algum momento, eles descobrem a verve original, o espírito verdadeiro”, completa Wayne.

Quando perguntado sobre os dias atuais, e se acha que as bandas deveriam assumir uma postura mais política, Wayne é generoso e diz que não julga ninguém, que não se importa se uma banda quer apenas fazer sucesso, ou ter reconhecimento mundial, o importante é que ajam de acordo com o seu coração, que façam tudo de forma verdadeira. Mas lembra que nos dias de hoje o posicionamento em prol da igualdade e liberdade e uma postura ativista são imprescindíveis. “Ativismo é algo necessário em uma democracia, não é apenas uma palavra que lemos por aí,  tem que se traduzir em ações, temos que trabalhar para garantir  que a democracia possa prevalecer, que possa florescer, e isso pede minha participação, sua participação. Se não houver envolvimento, podemos perder essa liberdade como aconteceu em alguns países no leste europeu onde acontecem eleições todo ano mas os líderes permanecem no poder, fazendo de conta que isso é democracia. Todos muito próximos a Donald Trump”, ironiza.

Hoje, além de sua carreira na música, Wayne se dedica a um projeto que ajuda na reabilitação de presidiários, algo que o toca de maneira pessoal, e sobre o qual ele fica bastante feliz em poder divulgar.

“Não é segredo que eu fui preso, e essa experiência me mudou profundamente. Entrei na prisão cheio de orgulho, com olhos brilhantes, e saí diferente, mais frio, mais durão menos sucessível aos anseios da juventude e mais realista sobre o mundo em que vivo. Descobri o quanto as autoridades podem maltratar os seres humanos. Sei de pessoas que foram presas por mais tempo que eu e em condições piores, que foram tratados com mais violência, mais ódio, mais ressentimento, e voltam às ruas, com muito mais raiva. Essas pessoas não foram reabilitadas e nem sequer habilitadas, não aprendem nada além de como se tornar pessoas piores. Eu não sabia como vender drogas antes da prisão, mas aprendi lá, hoje sei como. A população carcerária cresce a cada ano, e percebo uma revolta tão grande que me senti na obrigação de fazer algo por eles, algo eficiente”, diz Wayne, que continua: “Eu sempre gostava quando algum artista vinha à prisão fazer um show para nós. Era importante, e pensei que eu podia fazer algo assim.  Conversei com o Billy Bragg, cantor e ativista inglês que me falou sobre um projeto que levava instrumentos musicais para os presos, para ajudar na reabilitação, e esse projeto se chamava Jail Guitar Doors, nome de uma música do The Clash, que eles escreveram falando sobre minha vida na prisão. Então eu decidi trazer esse trabalho para os EUA.  Hoje conseguimos levar instrumentos a 160 prisões americanas e tocamos um programa  que usa o processo criativo para ajudar as pessoas a achar novos meios de expressar seus sentimentos complexos, dores, memorias e aprender a importância de colaborar com outras pessoas, algo que todos precisam em suas vidsa, e que é desencorajado nas prisões, cada um deve ficar em seu próprio mundo, em sua própria turma. Em nosso programa temos uma regra de que não existem divisões por gangues, cor, classe, sexualidade… somos todos artistas. Todos que participam amam porque redescobrem o que realmente são como seres humanos, todos têm histórias que merecem ser contadas”.

Todas essas histórias são apenas uma pequena parte da vida de Wayne Kramer, figura respeitada e amada pior todos que o conhecem. Há cerca de dois anos ele lançou uma autobiografia em que relembra todo seu passado, The Hard Stuff: Dope, Crime, the MC5, and My Life of Impossibilities, que infelizmente ainda não ganhou uma edição brasileira.

Mas nesta sexta-feira você tem uma oportunidade rara de ver essa figura lendária contando suas próprias histórias e falando sobre música e ativismo em uma entrevista à Inti Queiroz que acontece no painel A luta precisa continuar!, que será exibido a partir das 20h como parte da programação da SIM São Paulo.

Lembrando que para participar você deve adquirir uma assinatura da SIM Community, ou se quiser desfrutar de todo o conteúdo, pode adquirir uma credencial Pro-Badge, que dá acesso à toda a programação.

 

 

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