A FORÇA E A DIVERSIDADE DE ESTILOS DA MÚSICA LGBTQIA+ BRASILEIRA

A onda de conservadorismo que permeia o país tem se disseminado sem distinção. A censura do governo federal a projetos de TV com temas LGBTQIA+ e o veto a uma propaganda de banco com tema inclusivo são alguns dos exemplos, mas eles se multiplicam cotidianamente.

A cena musical LGBTQIA+ brasileira também sofre esses efeitos, mas não se intimida. Vemos exemplos de artistas bem-sucedidos em inúmeros estilos. Pabllo Vittar, que rompeu barreiras concorre ao Grammy Latino pela segunda vez, Bixarte, Jup do Bairro, Linn da Quebrada, As Bahias, Gloria Groove, Quebrada Queer, Rico Dalasam, Bemti, Liniker e Majur são apenas alguns nomes entre as centenas de artistas que provam que o talento fica acima de qualquer definição e demonstram a riqueza da diversidade de estilos e gêneros.

Até mesmo o sertanejo, que tradicionalmente era dominado por artistas masculinos, tem agora um novo segmento, o queernejo, que lança neste mês um festival próprio, o Fivela Fest, que acontece no dia 18 de outubro a partir das 15h com transmissão pelo Youtube. A ideia de juntar artistas LGBTQA+ sertanejos surgiu numa das mesas de discussão da SIM São Paulo no ano passado, quando os artistas Gabeu e Gali Galó tiveram a ideia. “Eu adoro lançar novos formatos na SIM. Como a Sela foi lançada lá, e eu já sabia do potencial da feira para lançar o Fivela também. Daí eu conversei com o Gabeu, que é o príncipe do pocnejo, e a gente se encontrou na SIM São Paulo já com a ideia de lançar o primeiro festival de queernejo do Brasil, o Fivela Fest”, diz Gali. O conceito queernejo foi muito bem recebido pela SIM , o que lhe deu estímulo para seguir com ele: “Então a gente já viu que se a ideia foi bem recebida ali, significava que o sertanejo estava carente dessa diversidade LGBTQIA+”.

A SIM São Paulo, desde sua primeira edição, tem o olhar voltado à diversidade. A música LGBTQIA+ e suas vertentes fizeram parte das mesas em muitas ocasiões, como no ano passado, quando aconteceu um debate sobre liberdade de gênero na música.

A musicista e produtora musical Malka Julieta, que teve na SIM São Paulo uma noite dedicada ao seu selo, o Travabizness, diz que embora não atue mais como gravadora, ainda percebe reflexos de seu trabalho voltado a artistas trans. “Eu vejo que depois disso foram abertos outros selos voltados a pessoas trans, LGBTQIA+, foi meio que um marco para conseguir abrir portas para outras pessoas”, diz. “Nesse exato momento tenho focado mais na educação, em tentar educar e formar novos produtores musicais trans para que possamos ter mais produções assinadas por pessoas nossas, por nossa comunidade, e multiplicar assim as possibilidades”, conclui Malka.

O cantor Filipe Catto, que participou da edição 2018 da SIM São Paulo, diz que a cultura LGBTQIA+ sempre esteve teve uma relação intrínseca com a música: “Trata-se de uma cultura universal, com pessoas atuando no rock, no pop, no rap, no samba, desde sempre. A cultura LGBTQIA+ é uma das mais resistentes de todos os tempos, porque foi marginalizada de todas as formas, mas persistiu e a partir dela, muita coisa apareceu no mainstream também. Essa é a força da cena LGBTQIA+ na música, no teatro, nas artes plásticas, na novela, no cinema, em todos os lugares. E a música é uma coisa que está aí, que faz com que as pessoas olhem para nós de uma forma generosa porque a música sempre é uma ponte muito direta com o coração do público, mas é só para dar voz a uma comunidade que é muito maior e muito mais poderosa do que as pessoas pensam, a gente não é minoria”, explica.

“Não existe diferença entre os seres humanos, acho que a gente está lutando contra uma coisa junto de várias outras forças, que não só LGBTQIA+, que é o pensamento binário, que é a diferenciação das pessoas por sexo, cor, raça, idade”, diz Filipe. Assim como ele, muitos artistas veem a música como um veículo com o qual consegue-se contar suas histórias e quebrar os preconceitos.

“A música é um agente transformador e, falando da causa LGBTQIA+, que é a causa em que eu estou inserido, eu acho que muitas pessoas podem se conectar a essas discussões, a essas causas, através da música. Eu vejo muitos artistas trazendo esse discurso muito forte nas letras, na estética, nos videoclipes, artistas que incluem isso na própria arte. E eu acho isso muito positivo, muito importante e que tem o poder de transformar”, aponta Gabeu, artista do queernejo e um dos criadores do festival Fivela Fest.

O sertanejo, assim como outros estilos musicais, tem em suas narrativas as histórias do homem branco hetero-cis-normativo. Gabeu, que é filho do cantor sertanejo Solimões e cresceu ouvindo estilo, completa: “Por muito tempo eu senti a ausência de uma figura no sertanejo que me representasse totalmente, enquanto garoto gay”.

Rico Dalasam, rapper, também acredita na música como um dos veículos mais importantes de expressão. “A música, das artes, é a mais disponível para o brasileiro médio. Deve ser isso que faz tanto artista dissidente achar vazão e linguagem na disciplina música, mesmo tendo tantas outras”.

Os integrantes do Quebrada Queer também viram que juntos podiam enfrentar melhor o preconceito. “No começo a gente estava descobrindo ainda muitas coisas e esse processo acabou sendo até mais ‘fácil’ por estarmos juntos, então foi uma vantagem para lidarmos com tudo de novo que vinha”, diz Murillo Zyess.

“Nós, escolhemos através das nossas músicas documentar vivências e denunciar atitudes LGBTQfóbicas porque o momento pediu isso e decidimos registrar, para relembrar esse sistema que nós estamos aqui e não vamos abaixar a cabeça! Mas de modo geral, documentar nossas vivências quanto LGBTQIA+ é como documentar tudo que acontece nas nossas vidas, então falamos dos mais diversos assuntos nas nossas músicas, e no futuro, tudo isso se transforma em um grande registro de tempo”, completa Harlley, do Quebrada. Tchelo Gomes, também do coletivo, completa: “Por isso e por muitos outros motivos que precisamos dar continuidade com os trabalhos gerando identidade e inspirando ainda mais artistas para fomentar ainda mais a cena no nosso país”.

Na luta contra os preconceitos, Malka fala da necessidade da proporcionalidade: “Eu acho a palavra representatividade muito tóxica e muito perigosa porque com a representatividade meio que se diz: ‘olha, aqui a gente colocou uma pessoa daquele grupo então nosso trabalho tá feito’. Por isso que eu falo que a gente tem que largar a representatividade para buscar a proporcionalidade, só assim a gente vai resolver esse desequilíbrio tão grande nas presenças corpóreas, nos trabalhos, na mídia e tudo mais”.

O Brasil é o país em que mais se mata pessoas trans e travestis. Malka fala dessa estatística: “Todos esses dados que a gente tem sobre as pessoas trans no Brasil são coletados pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) porque o governo não se disponibiliza a coletar esses dados mesmo com genocídio a céu aberto. E a cisgeneridade nada faz para tentar entender”. E completa: “Acredito que quando todas as instituições falham em exercer o seu papel seja de proteção, de direitos, na legislação de novas leis ou até de fazer valer os direitos que já foram conquistados, entendo que a arte e a música têm um papel fundamental, questionador e agente de mudança nesses momentos”.

Quando se fala de aceitação e pluralidade, ainda se desenha um grande caminho a ser percorrido, mas vivemos um momento crucial para a luta por direitos e igualdade. “É um momento de tanta revolução, vejo uma pulverização, uma profusão gigante de pessoas maravilhosas, é claro que o que me chama muito a atenção hoje são as mulheres trans negras periféricas que são representadas pela Jup do Bairro, Ventura profana também que é maravilhosa, Alma Negrot é minha super amiga grande artista queer de um nível inacreditável, a gente está vivendo hoje uma cena no Brasil de muita vanguarda. Acho que o Brasil hoje dentro da cultura LGBTQIA+ e tudo o que está se apresentando como vanguarda no mundo, eu acho que a música que está sendo feita pela comunidade LGBTQIA+  no Brasil é totalmente revolucionária”, diz Filipe Catto.

Preparamos uma playlist que mostra a diversidade e a força dos artistas LGBTQIA+

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