FLIP COUTO: MEU SONHO É TRABALHAR E PRODUZIR ATRAVÉS DO AFETO

Multiartista, produtor cultural e ativista, Flip Couto é dono de um extenso e admirável currículo. Autoditada, especializado em danças urbanas, atua também como produtor, diretor artístico, curador e performer. Ele ainda desenvolve trabalhos com o Coletivo AMEM, House of Zion, Cia. Sansacroma e dentro da Associação Aliança Pró-Saúde da População Negra.

“Como profissional da indústria criativa eu sempre tive muita dificuldade de encontrar pares para poder me fortalecer e existir dentro de espaços hegemônicos. Isso está mudando minimamente nos últimos tempos e eu tenho a esperança que essas conquistas só cresçam sem retroceder”, diz Flip. “Chegar em 2021 vivo me faz pensar como é sobreviver a todas violências do estado e continuar criando sendo bixa, preta, vivendo com HIV e artista independente no Brasil. Esse é o desafio. Enfrentar diariamente as estruturas do racismo, sexismo e classismo nos afeta tanto no profissional quanto no pessoal e essas violências estão diretamente ligadas ao sistema capitalista.”, diz.

Flip olha para o futuro, mas não deixa de render o devido respeito e reconhecimento aos que o ajudaram em sua trajetória. “Antes de falar sobre história, formação e influências e tenho que agradecer aos meus ancestrais, minhas famílias e minhas comunidades que são minhas maiores escolas e fonte de inspiração para chegar até aqui e seguir me desenvolvendo. Tenho o Hip Hop como minha grande faculdade que me introduziu nas artes e me deu ferramentas para me desenvolver no mundo sendo um homem negro. A cultura Ballroom é minha pós-graduação onde aprendo estratégias de fortalecimento coletivo através da performatividade de corpas negras, periféricas e lgbtqia+. Foram dentro dessas comunidades que acessei diversos conhecimentos, desenvolvi aptidões e sigo me aprimorando a partir dessas trocas em rede”.

Criado em uma casa cheia de música, Flip sempre foi estimulado artisticamente desde muito cedo. O jovem tímido teve seu grande encontro com o breaking aos 15 anos. “Depois de alguns anos só observando as rodas de breaking na escola e no bairro, eu tomei coragem para dar meus primeiros passos. Foi em 1999, na garagem do meu tio Renato, junto com meu primo Rafael e o Djha, amigo da família e meu primeiro mentor. Marco essa data como o dia em que me senti hip hop e que eu queria criar através do corpo. A partir daí passei a me interessar mais por música, teatro, pintura, moda e outras linguagens artísticas”, conta.

O interesse de Flip foi crescendo e, apesar de intuir o que seria seu caminho, ainda não entendia onde poderia chegar. “Por não ter referências de profissionais pretes nas artes, demorou alguns anos para eu entender que o que eu já estava fazendo poderia ser uma carreira para mim. Tive a felicidade de conhecer a Cia. Discípulos do Ritmo no início da minha formação e, como aprendiz, recebi mentorias preciosas que me prepararam para subir nos palcos, dar aulas, pesquisar e construir uma carreira. Ao mesmo tempo que sempre busquei estar no palco, eu me interessava pelo papel da produção e direção”, afirma Flip, que também cita a experiência que adquiriu ao lado de crianças e jovens. “Por muitos anos trabalhei como arte educador em diferentes projetos e escolas nas periferias de São Paulo, essa experiência me ensinou muito sobre o papel das artes e suas multiplicidades que mudam de acordo com os territórios. Fiz parte e colaborei com muitos grupos e coletivos como Chemical Funk, Time Room Lockers, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Sou Locker e outros. Foram esses encontros e conexões que teceram minha caminhada até aqui”.

Outro ponto importante em sua formação se deu na Europa, entre 2010 e 2013. Distante de casa, ele vivia um momento difícil e de amadurecimento. “Pela primeira vez me vi longe da minha comunidade e lidando com problemas bem complexos, pois foi nesse período que eu iniciei meu tratamento para o HIV e, sem falar a língua, eu tive que buscar formas de trabalhar e me conectar com pessoas. Quando eu voltei para o Brasil passei a me engajar mais em discussões sobre racismo, machismo, lgbtifobia e soropositividade”.

Flip acompanha a SIM São Paulo há alguns anos, pela conexão com as amigas e parceiras da produção como Isis Vergílio, Juliana de Jesus, Karen Cunha e Junin. Em 2019 participou de atividades com o intuito de se conectar com pessoas da indústria, conhecer projetos e também de se atualizar com as novidades da área. “Em 2020 eu fui convidado para participar de uma conversa incrível com Bixarte e Rico Dalasam sobre o Pink Money e fui entrevistado pela Jup. Então essa relação é só progresso, espero que em 2021 essa rede siga crescendo”, acrescenta.

Entre os inúmeros projetos importantes de Flip, se destacam o Coletivo AMEM e seu trabalho na Aliança Pró Saúde da População Negra: “Ambas organizações são muitas coisas e cheias de subjetividades, e por isso eu sou muito honrado de fazer parte pois, além de terem missões fundamentais para a sociedade que vivemos hoje, são formadas por pessoas que eu admiro e que me inspiro muito”, diz Flip.

“Começo falando da AMEM porque foi uma grande curva na minha vida profissional e pessoal. Em 2016 aconteceu a primeira edição da Festa AMEM, era uma pequena festa com média de 50 pessoas com a intenção de ter um espaço preto lgbtqia+ de encontros. Isso gerou um ambiente de muita intimidade e liberdade de criação, muitas pessoas incríveis foram chegando e ficando. Quando a festa completou 1 ano nos olhamos e nos entendemos como um coletivo preto multidisciplinar com integrantes da dança, música, artes visuais, educação e saúde. Ao lado do Coletivo AMEM realizei festas memoráveis com line-up de alto nível gerando debates, arte e afetos nos clubes, nas ruas, casas de show e teatros das cidades. Com o decorrer dos anos criamos lugares autônomos de cuidados, gerando maneiras de ampliar formas sensíveis de diálogos não somente sobre racismo, aids, lgbtfobia mas também sobre sobre o que é saúde, prazer, felicidade, amor e outros direitos humanos que pessoas pretas não têm acesso. Além disso, a AMEM é responsável por fomentar a cultura Ballroom em SP e organizar Balls icônicas que reuniu Houses de todo o Brasil e ajudou a cena brasileira a ter essa potência que vemos”, conta Flip que no ano passado foi eleito diretor executivo da Associação Aliança Pró-Saúde da População Negra.

“Para mim foi um dos grandes presentes de 2020. É uma posição que assumo com muita honra e responsabilidade por acompanhar toda a articulação de pessoas pretas que vem se organizando desde 2018 para o enfrentamento do racismo, mobilizando lideranças religiosas, coletivos e organizações, estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde e afins, atenta à necessidade de políticas efetivas em atenção à saúde da população negra, no país, no estado e no município de São Paulo. O mais rico da aliança é a capacidade de juntar em uma mesma roda saberes plurais de diferentes gerações e experiências para produzir conhecimento e gerar ações coletivas em resposta ao impacto do racismo na saúde da população negra. Os próximos anos serão marcados por muitos desafios pós covid-19, visto que toda a população foi afetada e essa pandemia ainda vai reverberar muito, razão pela qual, precisaremos desenvolver um outro olhar sobre a saúde pública e lutar pela permanência do SUS por políticas públicas em todas as áreas”.

Aos 37 anos, Flip mostra maturidade ao avaliar sua jornada até aqui. “Eu olho para minha carreira e percebo que lutei para ser artista porque queria ter o privilégio de acompanhar de perto processos criativos e poder conversar com pessoas que eu admiro e obviamente criar ao lado delas. Nessas conversas surgem muitas ideias e sonhos são exteriorizados. Concretizar esses sonhos sempre foi um desejo meu”.

O ano de 2021 começa promissor para Flip, que oficializou sua agência criativa, A.Voadoras, com enfoque em música, dança e artes performáticas. “Iniciei a pesquisa para a criação de um trabalho sobre masculinidades não hegemônicas; desejo aproximar os diálogos com comunidades de outros países, principalmente da ‘Améfrica Ladina’, como diz Lélia Gonzales, e seguir criando pontes, ampliando o alcance de projetos potentes, fazendo com que o conhecimento de qualidade chegue até ao nosso povo e gere emancipações”, planeja.

Em recente entrevista concebida à cantora Jup do Bairro, Flip, questionado sobre os planos para o futuro, é direto: “Meu sonho é seguir trabalhando com artistas que eu admiro e produzindo através do afeto. Talvez isso seja uma utopia, mas é o que me move”, e completa com mais um desejo coletivo para o ano que se inicia: “Além disso desejo que a vacina chegue logo a toda população para que vidas sejam poupadas, para nos encontrarmos novamente, ir a shows, festas e também viajar para conhecer novos movimentos”.

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