PATRICKTOR4 FALA SOBRE ELITISMO NA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

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2021, PRECONCEITO E ELITISMO NO MERCADO DA MÚSICA

Por Patricktor4

Toda virada de ano, é bem comum a gente ver bombar, em várias postagens, listas de melhores discos, prêmios de artistas do ano, melhores isso, melhores aquilo. Enfim, gente compartilhando seus pontos de vista, grupos e entidades sugerindo, com suas curadorias, os melhores e mais relevantes projetos, artistas e bandas do ano que findou.

Como um nordestino, porém, cheio de privilégios, demorei muito para perceber o quanto estas ótimas listas – em sua esmagadora maioria feita por gente branca e privilegiada como eu – repetia e replicava todos os preconceitos que tentamos combater na nossa contemporaneidade, reflexo de anos e anos de racismo estrutural, patriarcado e concentração de renda em poucas capitais brasileiras.

Acaba que o ano da pandemia, em que boa parte do mercado da música sofreu sem os encontros presenciais, potencializou o fosso que sempre nos separou, fazendo com que os mesmos nomes, dos mesmos lugares, ocupassem os mesmos espaços com outras obras.

Em 2020, aconteceu ainda de as mesmas pessoas e os mesmos grupos decidirem quem eram os mesmos a ocuparem seus respectivos lugares com seus trabalhos nem sempre tão interessantes assim. Ou seja: estamos andando para onde?

Para que serve mesmo um discurso da música e da cultura independentes, se elas acabam sendo praticadas, consumidas e incentivadas para o mesmíssimo grupo de gente branca, tatuada e bem nascida da classe média?

Ali pelos anos 1990, questionar a indústria sendo “alternativo” a ela tinha sua potência, ampliava o diálogo estético, rompia amarras comerciais e dava autonomia artística para bandas, projetos e artistas. Mas este debate se esgota, quando entram em questão outras bandeiras, como a rarefeita presença de mulheres donas dos processos estéticos e trabalhos musicais, a falta total de pretos e pretas nos shows e festinhas alternativas (nos palcos e no público), o silenciamento de LGBTs e, sobretudo, de mulheres lésbicas, a absoluta ausência de pessoas trans nas plateias dos rolês, nos palcos, nas programações de eventos e festivais.

Faça o teste do pescoço e olhe ao seu redor nestes locais. Quantos não brancos estão ao seu redor na posição de consumidores?

Corta para janeiro de 2021. É inegável que, recentemente, houve avanços, pequenos e tímidos. Mas, caramba, não dá para achar que, 30 anos depois, ser alternativo é algo cool, se não tem diversidade real, ou considerar normal pagar meio salário mínimo para ir a um festival em que TODOS os headliners são estrangeiros (leia-se Ingleses e norte-americanos). É inadmissível um evento/show/festival que não tenha pluralidade em seu line up e, sobretudo, que se multipliquem listas de melhores do ano sem artistas com origem no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, interior do Sudeste e Sul.

Outra questão fundamental é a concentração destes atores brancos dirigindo, coordenando e liderando produções, eventos, projetos e determinando as listas de melhores. Se estas peças não se movem, os resultados serão sempre iguais, sempre mais do mesmo. É desta mudança cotidiana, de empoderar pretas e pretos, LGBTs e periféricos, que vão surgir as transformações significativas nas pautas, nos line ups, nas listas. Não apenas na última hora, no fechamento da programação, pedindo uma indicação de um artista mulher ou preta/o, para cumprir cota na sua listinha cool.

Os conceitos de “alternativo”, “indie” e “underground” podem também estar recheados de elitismo, replicando lógicas de mercados muito diferentes do nosso. Podem acabar mantendo olhos e ouvidos presos em certas perspectivas, que faziam sentido há 20, 30 anos, e que levam alguns eventos, palcos e projetos a estarem indo pra bem longe do pensamento progressista, abraçando um novo conservadorismo.

Esta miopia faz com que uma boa parcela do mercado da música concentrado em capitais e no sudeste deposite o mais preconceituoso olhar em relação a linguagens musicais do Norte e Nordeste do Brasil, do bregafunk, da pisadinha e do pagodão baiano. Quando não estão com o desdém da superioridade da alta cultura, estão com a saliva escorrendo da boca, naquele desejo sedento de se apropriar da linguagem e faturar milhares ou milhões.

Música e cultura são e sempre serão trincheiras de mudanças sociais. O que já foi pauta fundamental ontem pode, sim, ser derrubado hoje e virar uma iconografia demodê e careta. Se não se amplia e garante a real diversidade, não se percebe o fluxo das mudanças sociais cotidianas e, sobretudo, as demandas do mercado. Afinal, temos mesmo um mercado?

 

Patricktor4 é um dos principais DJs e produtores brasileiros. É responsável pelo Baile Tropical, festa itinerante que já circulou por mais de 10 países. É gerente de programação da Frei Caneca FM, emissora pública do Recife, além de atuar no coletivo Radialivres para a promoção e fortalecimento de pautas ligadas ao fazer radiofônico.

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