REVERBO, O COLETIVO DE MÚSICOS PERNAMBUCANOS COM VISÃO HUMANISTA

O coletivo Reverbo surgiu de uma inciativa do músico e compositor pernambucano Juliano Holanda e de sua esposa, a produtora Mery Lemos. Os dois sempre foram sensíveis às dificuldades dos artistas do interior em se relacionar com a metrópole do estado, Recife. “Sempre tivemos essa preocupação, de olhar para o interior, identificar novos artistas, participar de festivais iniciantes e pensando em fortalecer a música”, diz Mery.

Juliano, que teve músicas gravadas por muitos artistas pernambucanos e de fora do estado, conta que sempre foi questionado do porque não ir ao sudeste, onde ficam os principais meios de comunicação. “Sempre tivemos vontade de atuar aqui, e isso não é uma vontade aleatória, há aí uma consciência política de ficar no lugar e desenvolver seu ambiente”, diz.

Logo após gravar seus dois primeiros discos solo, A Arte de Ser Invisível and Pra Saber Ser Nuvem de Cimento Quando o Céu For de Concreto, Juliano recebeu um convite para fazer a trilha de uma minissérie na Rede Globo, que gerou uma ótima visibilidade. Na época ele se questionou sobre o que fazer com a responsabilidade que isso acarretava e, depois de um período morando no Rio, resolveu voltar para o Recife e começar a investigar o que estava acontecendo na cena musical.

“A percepção na época, há seis anos, foi a de que havia pequenas bolhas, pequenos núcleos se formando de maneira muito orgânica ao redor de todo o estado, sempre muito ligado à canção. Paralelo a isso, começa a acontecer um fenômeno em Pernambuco de que os shows grandes começam a ficar mais rarefeitos e começou uma valorização das pequenas casas, com a possibilidade de apresentações de música autoral”, diz Juliano. Um tempo depois, uma produtora local criou um projeto chamado Cantautor, que fazia uma relação entre músicos pernambucanos e artistas sul-americanos; na mesma época, aconteceu a abertura de uma casa em que aconteciam shows mais intimistas, o que aproximou os artistas. Juliano conta que nesse período conheceram outras pessoas e que isso foi decisivo para o que viria ser o Reverbo. Logo começaram a promover encontros na sala de sua própria casa, onde os músicos mostravam suas canções com voz e violão. “Já havíamos participado de outros encontros, mas a questão principal de qualquer processo coletivo é o afeto, é ele que mantém tudo junto. E esse foi o primeiro exercício, perceber quem corroborava com nossos interesses, muita gente entrou, muita gente saiu, foi um processo muito orgânico”. Mery conta que esses encontros eram muito especiais, começaram pequenos e logo viraram um evento que os obrigou a mudar de apartamento. “Era uma loucura, uma sala em que cabiam 10 pessoas a gente colocava 40, e a gente foi construindo uma relação de amizade, de carinho, de amor com essas pessoas”.

A ideia foi tomando corpo, cada um que entrava trazia um elemento diferente, e também outras pessoas. “O Reverbo não é um núcleo fechado, é um conceito, uma idéia, é a capa da visibilidade, algo que você coloca e cria em você um conceito de holofote”, diz Juliano.  “Formação de público aqui é bem complicado, e quando começamos a fazer esse circuito de show nas casas pequenas começamos a fazer uma rede de troca de públicos. Em 2019, quando eram apenas 15 artistas, fizemos 200 shows em pequenas casas. Isso é um número representativo enquanto economia, movimentação de carreira. A gente é pequena, vivemos em uma província, mas esses dados são importantes em relação a quanto se movimentou, sem nenhuma lei de incentivo”, completa Mery.

Finalmente em 2017 aconteceu a primeira mostra Reverbo, em um pequeno teatro local com dez artistas se apresentando. Pouco tempo depois, eles já se apresentariam no lendário Teatro Santa Isabel. “A gente lotou esse teatro, que é o grande templo da música pernambucana, que cabem 600 pessoas, e foi algo muito bonito. Conseguimos fazer duas edições no interior, em Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe. Lotamos teatros no interior, o que é ainda mais surreal, o que mostra a importância dessas pessoas estarem reunidas. Depois desse show, começaram a nos contratar”, conta Mery. O próximo passo foi criar a Ocupação Reverbo, três dias, cada um com dez artistas e participação de palestrantes como Benjamim Taubkin, Ronaldo Bastos e Sthephany Metódio, produtora cultural de Garanhuns”, diz Mery.  O projeto seguinte seria uma ocupação na cidade de Campinas, no estado de São Paulo, mas o projeto foi adiado por conta da pandemia.

Juliano lembra de um dia em que recebeu o compositor Chico César em sua casa e, junto com os integrantes do Reverbo, ficaram até de madrugada tocando músicas autorais. E quando perguntado se estava cansado, insistiu em mais uma rodada. No outro dia ele contou a Juliano que a noite havia sido inspiradora. “Esse é o lance. Quando perguntam qual o objetivo do Reverbo, eu respondo: a próxima nota, a próxima palavra, o próximo verso, a próxima música, o próximo encontro. Estou mais preocupado com as pessoas do que com as coisas”, diz Juliano. “O objetivo é mostrar que tem outro jeito de fazer, de se relacionar, a gente vive dentro de uma disputa que tem muito a ver tem muito a ver com esse nome, mercado. Eu estava lendo um edital e somos todos concorrentes. Li várias vezes e me caiu essa ficha. Acho massa edital, e importante, mas esse lugar que coloca os artistas como adversário… as pessoas não estão ali concorrendo para comprar uma BMW, é para comer mesmo. Quando você tem um olhar mais humanizado acerca dos processos e dos formatos a somos obrigados a pensar o que pode ser feito, como podemos viver com dignidade dentro dessa lógica, ajudando e convivendo com essas pessoas”, completa Mery.

“Entendo que esse formato existe e que serve a alguma coisa e para alguma coisa, mas isso não se comunica com a gente que sempre tivemos pensamentos sobre sociabilização, equalização das coisas precisaríamos ter uma conversa mais ampla. Uma pessoa que está no Sudeste não tem ideia de como são as coisas para alguém de minha cidade, Goiana”, diz Juiano.

Mery lembra quando foram ao primeiro mercado cultural em Salvador, em 2005, e assistiram a uma palestra que falava sobre artistas de bairro: “Eles falavam que na Europa existia um universo de atuar em espaços pequenos, e isso é algo muito atual, é o que conseguimos fazer”.

O Reverbo tem chamado a atenção por sua diversidade e seu alcance, e muita gente o identifica como um movimento ou uma nova cena da música pernambucana. “Temos receio desse rótulo, isso sempre foi uma discussão. Quando você fecha em uma cena, você exclui. É uma estrada que se inventa a cada passo, não temos um ideário ou um objetivo, como o Mangue Beat, que queria acessar as gravadoras do Sudeste, ficamos muito mais no campo das ideias, das possibilidades de se relacionar com o mundo. Somos como uma molécula de um monstro enorme, ao mesmo tempo independentes, mas que se move ao mesmo tempo que ele”, diz Juliano.

Para o futuro, os planos incluem remarcar a data para a ocupação em Campinas e talvez estender os shows em uma turnê, que pode chegar em São Paulo; planos que foram adiados com a chegada da pandemia.

Mery conta que no início pensaram em fazer alguma coisa, mas realizaram apenas um projeto: “Fizemos um único projeto chamado Canção diária, com músicas compostas naquele dia ou naquela semana, que foram postadas no Instagram. Acho que ao todo foram 25 ou 26 músicas, mas aí comecei a entender o movimento dessas pessoas e que tinha que respeitar esse lugar da introspecção de cada pessoa”. Juliano conta que, ao contrário da tendência, optaram por não realizar lives. “Em nossas apresentações todos ficam no palco enquanto um ou dois cantam, tem gente que vai em todos os shows, na internet a gente não teria essa interação, e a gente estaria competindo com os próprios integrantes que estavam fazendo suas lives”, diz.

Outra funcionalidade do Reverbo nessa pandemia foi dar amparo psicológico e emocional. “Acho que isso é o principal. Imagina você ter um WhatsApp com 30 artistas te mandando músicas, textos, melodias. Isso para quem está em casa”, diz Juliano. Mery lembra que o Reverbo é um grupo muito diverso: “ Somos pessoas diferentes, de territórios muito diferentes, e há de se respeitar esses territórios também, desde a galera que está mais dentro do sertão, e até um integrante que mora na aldeia pankararu e está na luta dele. Um vai amparando o outro, não só financeiramente. Isso vai se amalgamando, como diz Jorge Mautner, tudo baseado em uma relação de afeto”.

O coletivo conta hoje com 29 pessoas fixas. Juliano gosta de reforçar a característica do grupo: “Somos a geração que resolveu dizer sim. Nunca dizemos talvez, ou não, dizemos sempre vamos nessa, vamos fazer o show. Música é feita para melhorar as pessoas”, diz ele lembrando uma frase de Benjamim Taubkin.

 

 

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