SAIBA COMO ESTÁ SENDO A RETOMADA DAS CASAS DE SHOW NA EUROPA

A pandemia afetou a economia e por consequência o golpe na cultura foi ainda mais duro. Os lançamentos de cinema ficaram represados, grandes festivais cancelaram suas edições de 2020, as grandes casas de shows não têm planos para reabrir. Mas, se no Brasil os shows ainda se resumem às lives, festivais virtuais e ao novo formato drive-in, na Europa já acontece uma movimentação para reabertura de casas e incentivos dos governos para reaquecer o mercado cultural, mesmo com ameaça de uma segunda onda de Covid-19.

É o caso da França. Paris liberou shows só em setembro, após o verão. Hoje, os jornais mostram uma agitada agenda cultural, que se aproxima da chamada normalidade. “Os franceses se preocupam muito com cultura, eles sempre tiveram políticas públicas para isso e eles entendem que é um setor muito afetado e vai demorar muito para se recuperar, então tem muita ajuda governamental”, explica Juliano Zappia, jornalista e produtor cultural brasileiro, que reside na Europa.

Na França, como as casas estão trabalhando com capacidade reduzida (em média 70% de sua lotação), o governo está pagando pelos ingressos não vendidos. “Isso para shows marcados para este ano e para acontecer até março de 2021, o que está dando uma confiança muito grande para artistas e para promotores”, explica Juliano.

Essa ajuda beneficiou diretamente um artista brasileiro que é o Lucas Santtana. A segurança de parte da bilheteria garantida pelo governo permitiu que ele fechasse uma turnê com mais de dez datas. “Acho que ele vai tocar em mais lugares do que ele tocaria antes da pandemia, ele vai rodar a França inteira. Acho isso espetacular”, avalia Juliano.

Já em Portugal, a liberação para realização de eventos veio mais cedo, em junho. O primeiro grande show aconteceu no Campo Pequeno, em um espaço para 6 mil pessoas, mas para o qual foram liberados apenas mil ingressos. E, ao contrário dos vizinhos franceses, eles não tiveram tanto incentivo do governo.

“A Covid-19 afetou muito a vida noturna e a indústria cultural, são os que mais sentiram até agora todo esse setor. Não só os artistas diretamente, mas todas as atividades ligadas, técnicos de som e luz, tudo o que faz movimentar essa indústria. A grande crítica que existe no meio cultural foi uma grande ausência do Ministério da Cultura, dos setores da cultura aqui em Portugal, isso é notório”, diz Mario Almeida, empresário e dono do Espaço Espelho D´Agua, importante local de eventos de Lisboa. “As pessoas sabem que têm que pagar suas contas e tocar suas vidas. Elas não estão tão confiantes porque as notícias mostram um aumento no contágio, mas as dificuldades fazem com que procurem tocar suas vidas e consequentemente começam a frequentar algumas atividades de lazer. Com nomes que atraem público, as casas atingem seus níveis máximos”, avalia.

O Espelho D´água, de Mario, por ser um espaço grande, amplo, pode ser reaberto em maio com o público espalhado por uma agradável área aberta. “Constatamos que as pessoas preferem o espaço externo. Somente à noite, com o frio, é que procuram o espaço interno”.

A pandemia fez com que eles organizassem a agenda de uma maneira específica. Como não podem mais contar com os eventos esporádicos, o que davam à casa uma média de 30 mil pessoas por ano, tiveram que se reinventar. “Então tivemos a ideia de fazermos nós os eventos, juntarmos gastronomia com atividades culturais, o projeto Som e Sabor. Foi uma forma de realizarmos um projeto com consistência e com regularidade. E quando tínhamos o Espelho D´água antes da covid, nós fazíamos nossos concertos só aos domingos no final da tarde. Não podíamos nos comprometer com uma programação fixa porque quando apareciam outros eventos, mostras, jantares, precisávamos realizar. Com o Som e Sabor, e uma vez que desapareceram essas grandes mostras e jantares, podemos ter uma programação fixa e com regularidade.  Em princípio pensamos só numa programação de verão, mas com a evolução que a pandemia está tendo, e com a notoriedade que o projeto alcançou, decidimos entrar nos meses de inverno”, diz Mario.

Além de ter permitido a abertura das casas mais cedo, Portugal segue uma regra de distanciamento diferente do restante da Europa. “O distanciamento tanto na Inglaterra quanto na França permite que um grupo que chegue junto possa se sentar junto. Em Portugal, normalmente em casas de shows, os lugares são ocupados alternadamente. Uma pessoa, um lugar vago, outra pessoa. Foi uma maneira mais rápida e mais fácil deles fazerem os ajustes”, explica Juliano, que continua: “Teve muita coisa, mas temos sempre que lembrar que é dentro do limite que Lisboa é. Portugal é um país de dez milhões de habitantes, Lisboa uma capital com menos de um milhão, poucas casas de shows, algumas casas de shows muito grandes. As grandes casas de shows não estão abrindo.”.

Em Berlim, nenhuma casa reabriu, a Alemanha tem fortes restrições a aglomerações. Na Inglaterra, a reabertura começou em setembro, mas muitos lugares seguem fechados como Royal Festival Hall, Southbank todo está fechado. O Barbican, que é um grande centro cultural, ficou fechado e agora está reabrindo com distanciamento social, e há no país agora uma aposta nas lives. “As lives funcionaram muito no Brasil, mas não em Portugal ou na França. Na Inglaterra parece que está funcionando. Teve o caso bem interessante da Laura Marling que lançou um álbum este ano e fez uma live direto da Union Chapel, e parece muitos ingressosforam vendidos, a 12 libras cada, metade do ingressos convencional, mas que não é barato”.

O Barbican está fazendo isso, tem uma programação interessante de jazz, de música contemporânea, que pode ser visto de casa pelo mesmo valor de 12 libras. O Royal Opera House de Londres voltou essa semana. O lugar com capacidade de 2 mil pessoas passou a ser ocupado apenas por 400. O Jazz Cafe, tradicional casa em Camden, no norte de Londres também diminuiu a capacidade para 100 a 120 pessoas.

“A retomada está acontecendo com bandas locais, com centros culturais com mais dinheiro, com a ajuda dos governos. Mas são poucas as pessoas que estão vivendo disso ou que podem fazer um business dessa maneira nova. Muitos lugares fecharam, muitos não vão reabrir, teve ajuda do estado para casas e produtores em Londres, na França, muito pouco em Portugal, então ali acho que podem acontecer alguns problemas”, diz Juliano.

As restrições ao turismo também se refletem na indústria cultural. Alguns países tentaram com o verão (julho e agosto) abrir as fronteiras, a quantidade de voos aumentou, mas com o novo aumento no número de casos, as medidas restritivas voltaram. “Quando eu estava em Marseille, por exemplo, tornou-se obrigatório o uso de máscara nas ruas durante o dia, não só em lugar fechado. Mesmo assim, à noite fui ver um show ao ar livre, com distanciamento, num lugar incrível para quase 80 pessoas. Então tinha coisa acontecendo”, diz.

Muito do turismo que aconteceu em 2020 foi local, observa Juliano. “O Algarve em Portugal, que visitei recentemente, estava muito cheio, mas em sua maioria de portugueses. O que acontece é que eles não têm um poder de renda, de compra, tão grande quanto o resto da Europa. Então estava cheio, mas não estava se consumindo como se estivesse numa época normal, com franceses, italianos e ingleses visitando o lugar”.

Mário acredita que o turismo ainda tenha dificuldades em 2021 e imagina que deva existir um estímulo ao turismo nacional. “Talvez seja a solução porque tão cedo não vejo o turismo internacional aumentar e voltar aos níveis que estava”, conclui.

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