Fabiana Batistela: o poder feminino por trás da plataforma SIM São Paulo

Em seu oitavo ano, a SIM São Paulo se transforma e se expande, deixando de ser um evento para se tornar uma plataforma de conteúdo e conexões para o mercado da música. A ousadia da SIM, de crescer e se reinventar no momento em que o mundo vive uma crise sem precedentes, está diretamente ligada à personalidade vibrante de sua diretora, Fabiana Batistela, e sua habilidade de encontrar sempre uma forma de traçar novos caminhos para continuar criando e trabalhando no que acredita, como ela mesma diz: “É nos momentos de crise, novas ideias surgem e como a velha cartilha não funciona mais, você pode fazer do seu jeito e tentar”. E, no caso de Fabiana, o jeito dela tem dado certo.

A paixão pela música começou cedo, aos 16 anos pediu ao pai para fazer um intercâmbio na Inglaterra para aprimorar o inglês. Mas a intenção com a viagem era viver a cena do britpop acontecendo naquele início dos anos 90. Dois anos depois, diante da decisão sobre que rumo seguir na universidade, o ponto de partida foi a vontade de abraçar a música como carreira. “Queria trabalhar na indústria da música. Não queria tocar, nem ser artista. O que eu queria era fazer as coisas acontecerem. Eu já tinha várias ideias de festivais, de eventos, mas não havia um curso específico para música nessa época; não havia music business, por exemplo. Na época a ESPM era a melhor faculdade de Marketing da América Latina. Então, fui para comunicação social, publicidade, porque achava que era um curso que iria me dar alguma possibilidade, alguma estrutura, alguma base pra trabalhar no mercado da música depois”, relembra. 

Logo estava no mercado, na redação da revista Bizz, onde além de entrevistas e matérias com bandas internacionais e nacionais, foi responsável pela seção “Democracia”, que dava espaço a novos artistas brasileiros. Nascia ali a ideia de unir os aprendizados da comunicação à paixão pela música. 

Em 2001, criou a Inker Agência Cultural e montou o Festival Upload. Na primeira edição do festival, no aguardado show de volta da gaúcha Graforréia Xilarmônica, Fabiana viveu um momento marcante. Depois de sucessivos atrasos, técnico do espaço cortou o som da banda que voltava para o bis. A plateia então, continuou cantando as músicas, e a banda tocava os instrumentos desligados. “Ali eu percebi que havia proporcionado um momento histórico para quem gosta de música. Era isso que eu queria fazer para a vida: coisas incríveis, que sejam marcantes, que possam transformar a vida das pessoas, virar memórias, lembranças. E é isso que a música proporciona”, conta. 

O Upload teve duas edições com apresentações históricas dos Los Hermanos, Mulheres Negras e Instituto, com participação do Sabotage, e abriu caminhos para a construção de uma trajetória respeitada dentro e fora do país. O histórico show do Pixies, para uma plateia de dez mil pessoas no Curitiba Pop Festival em 2004, talvez seja a mais lendária realização da produtora que também trouxe ao Brasil nomes como Nada Surf, Lemonheads, Weezer, Cardigans, Supergrass, The Hives, MC5, Mercury Rev, Gruff Rhys, Thurston Moore e Mudhoney, entre outros. 

 

Em 2012, Fabiana foi convidada pelo Le Bureau Export para conhecer o MaMA, convenção de música que acontece em Paris. “Eu me apaixonei. Era um formato muito legal que usava a cidade como cenário, as casas de show para os showcases. A gente não ficava fechado num galpão como nas conferências tradicionais. Tinha foco no conteúdo, no speed meeting, nos artistas. E eu pensei: ‘quero fazer isso em São Paulo’. Ela já deveria acontecer em São Paulo há muito tempo, era uma questão de trazer o modelo certo na hora certa”. Um ano depois, nascia a SIM São Paulo colocando a capital paulista no mapa das principais feiras de música do mundo. 

O fato de ser uma mulher à frente de um projeto de sucesso levanta questões que Fabiana conhece bem – e há muito tempo. “No começo dos anos 2000, na revista Bizz eu era a única mulher da redação (a outra mulher na empresa, era a secretária). E um grande erro dessa época era achar que o legal era estar entre homens, mesmo você sendo a única menina ali. Olha que equívoco! Sempre senti que tinha que provar muito mais fazendo as coisas para que as pessoas acreditassem em mim. E hoje meu maior foco é dar oportunidade para mulheres sempre. A maioria das minhas equipes sempre foi de mulheres. Tenho esse olhar de sempre procurar primeiro uma mulher”.

Na SIM São Paulo, desde 2015, equidade de gênero é regra, com 50% da programação é composta por mulheres. E a busca por mais diversidade na indústria da música um norte que tem, ano a ano, ampliado a participação de negros, índios LGBTQA+ e outras vozes marginalizadas, na programação do evento. “Isso traz para o holofote pessoas cujas vozes ainda não tão repercutidas, abrindo espaços com naturalidade e influenciando futuras ações”, observa Fabiana sobre o espaço de provocação que a música pode ocupar na sociedade. 

“No ano passado nosso tema era ‘O mundo discutindo o futuro da música e a música discutindo o futuro do mundo’. A música pode atuar nisso? A música deve atuar nisso, tem força e poder para mudar tudo. Por isso governos autoritários e fascistas têm tanto medo da música: porque a cultura, a arte e a música transformam. A música moldou minha personalidade, a música mudou a minha história, a música trouxe todo mundo com quem eu convivo hoje, a música é tudo. A música tem esse poder e acredito que as pessoas hoje precisam se engajar e precisam tomar partido das coisas”, completa. 

Aos 42 anos, mãe solo e com a carreira no auge, ela vivencia hoje o desafio de muitas mulheres que se dividem entre a família e o trabalho: “É preciso que haja um ambiente justo e acolhedor e isso deve começar pelo nosso entorno: pelo pessoal da música, que é mais humano e sensível. Na SIM 2020, em meio a pandemia, vamos falar sobre tudo isso”.

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Comentários

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  1. Faltou contar que foi repórter de cultura do Estadão. Quando a conheci, em 98 ou 99 (creio), estávamos cobrindo o festival Go Rock, em Goiânia. Ela pelo Estado e eu pelo jornal International Magazine.

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