FABRÍCIO NOBRE FALA SOBRE A PANDEMIA NA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

UMA REFLEXÃO SOBRE A PANDEMIA

Por Fabrício Nobre

A chegada de uma pandemia sempre foi prevista, mas parecia algo distante, nenhum de nós pensava em ser testemunha de um cenário tão avassalador e tão duradouro.

Fica até difícil em meio a essa distopia pensar no que mais me mais deixa chateado, mas dois pontos me incomodam de uma maneira pungente, a insegurança que enfrentamos no dia a dia e o desgoverno brasileiro, que não trata a pandemia como a tragédia que é, trata com desdém o maior problema de saúde de nossa época.

Do ponto de vista mais pessoal, principalmente em relação ao nosso trabalho, me deixa triste saber que a maior parte setor musical, por uma ação responsável, não consegue voltar a trabalhar. Não conseguimos ter uma medida exata dos riscos e dos parâmetros para que isso aconteça. Não existem pesquisas nem dados de qualidade para que possamos criar um protocolo confiável. Muito por culpa da nossa falta de mobilização e organização, mas também por não ter suporte algum das pessoas que foram escolhidas para nos liderar enquanto governo. O único jeito é ficar sem trabalhar, mudar o modo de fazer as coisas (mesmo sem saber completamente como vai funcionar) ou se arriscar em uma loucura fazendo coisas clandestinas, o que obviamente seria um absurdo. Fico irritado e preocupado, por não poder exercer nossa profissão do jeito que deveria acontecer, e também por saber que tanta gente continua consumindo arte e música apenas pela TV e plataformas / canais digitais, mas que não conseguem entender o tamanho da comunidade que é movimentada pela realização de música ao vivo, presencial.

Sinto falta de tudo, dos shows, da música alta, das pessoas, do convívio, de poder ouvir coisas novas. A sensação causada pela música ao vivo é única. Tenho brincado que já estou sentindo falta até de turbulência de avião e passagem de som de manhã, duas coisas que sempre odiei nos trabalhos de estrada, por exemplo.

Penso que as pessoas deveriam ter respeitado o distanciamento social, usado máscaras de uma forma mais efetiva, mas sei que a culpa principal é das autoridades que estão liderando o país, que fizeram um trabalho de contra informação e seguem fazendo de tudo para que as coisas funcionem de forma contrária a solução situação fúnebre que vivemos.

Por enquanto o melhor é saber que devemos não apenas nos cuidar, mas também ter cuidado com quem está ao nosso lado. Em algum momento, espero que em breve, será apenas história e uma lembrança triste dos milhares de mortos que merecem nosso respeito e do desgoverno que só merece nosso desprezo.

E diante de tantas limitações e impossibilidades, temos que aproveitar nosso tempo da melhor maneira possível. Muita gente está se ocupando, gravando discos, fazendo lives, criando conteúdos geniais, compondo novos sons. Eu tenho muita sorte e amigos, que conseguiram uma oportunidade com trabalho online e estou adorando fazer e aprender, e ainda estou conseguindo aproveitar meu tempo estudando, participando de palestras, encontros, algo que na verdade deveríamos fazer durante toda a nossa vida.

Por enquanto nossa única esperança é a vacina. Mas precisamos saber que o mundo mudou. Acho que parte das pessoas será capaz de compreender que precisamos ser mais cuidadosos, atenciosos, empáticos. Mais do que nunca é necessário entender que o mundo inteiro está conectado. Essa pandemia nos mostrou a facilidade com que o vírus pode se disseminar, a velocidade com que as informações ideias e conceitos podem se espalhar. E essa mesma facilidade, essa mesma velocidade pode e deve ser usada para disseminar coisas boas. Temos que utilizar essa força.

O grande lance é entender que a formação nunca para. Mesmo que você esteja em um bom momento profissional, ou pessoal, coisas podem acontecer, a vida é assim. E você precisa se preparar, estudar, participar, entender o mundo como um todo, para que juntos possamos nos posicionar de maneira mais inteligente e assim seja possível viver de uma maneira mais tranquila, mais harmônica e mais humana.

Fabrício Nobre é diretor do Festival Bananada, consultor artístico de programação do Grupo Vegas e sócio-fundador da Braba Música, responsável pelo agenciamento de artistas como João Donato, Tulipa Ruiz, Felipe Cordeiro, Hellbenders e dos portugueses Paus e The Legendary Tigerman.

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