FLAVIO “SCUBI” DE ABREU É O CONVIDADO DA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

UMA VIAGEM COM DOUTOR HERMETO

Por Flávio “Scubi” de Abreu

Em maio de 2017 fiz uma das viagens mais mágicas com Hermeto Pascoal. Eu já o acompanhava há algum tempo e havíamos, com seu Grupo, viajado para muitas cidades do Brasil e do mundo, portanto já éramos “companheiros de estrada” há alguns anos. No entanto, desta vez, fomos apenas nós dois: eu e Hermeto. O destino era Boston, onde ele receberia um título de Doutor Honoris Causa do New England Conservatory.

Hermeto ficou muito feliz com o reconhecimento, principalmente pelo fato da sua maneira de ver a música ser quase nada acadêmica. A viagem foi organizada em pouco tempo e logo estávamos os dois embarcando para os Estados Unidos. Hermeto é um excelente viajante, conhece todos os trâmites dos aeroportos, das alfândegas, dos hotéis. Sabe sempre onde se sentar, o que comer, ou seja, uma ótima companhia. Fomos bem recebidos pelo pessoal da NEC e pelo pianista brasileiro Henrique Eisenmann, professor do Conservatório e fã do Hermeto.

Havia um protocolo a ser seguido, com prova da beca, encontro com os outros laureados, sessão de fotos e uma recepção. Logo Hermeto me perguntou: “que horas eu falo?”, e fomos informados que a cerimônia não permitia que os homenageados discursassem, por questões que, enfim… questões. Hermeto, obviamente, não se deu por vencido e estava pronto falar o que ele tinha que falar. Como sempre, ele tomou uma bela taça de vinho tinto e, quando subimos ao palco, Hermeto foi imediatamente aplaudido de pé pelo salão lotado de músicos formandos e suas famílias. Por um pequeno instante, tive a impressão de que Hermeto pensava estar subindo ao palco de um show, mas no instante em que se virou para o grupo, notou que na verdade era uma cerimônia superformal. Ele se sentou ao meu lado, ouvimos uma série de discursos, os quais eu tentei traduzir o melhor que pude para Hermeto ao pé do ouvido; além da tradução, eu também estava segurando um celular transmitindo a cerimônia ao vivo pelos canais do Hermeto.

Finalmente, chamaram o Campeão, com a devida pompa, e ele já se levantou da cadeira fingindo que não conseguia nem andar, mas logo deu um salto e um grito, arrancando gargalhadas de todos. Tom Novak, o reitor, entregou o diploma e uma medalha a Hermeto e ele notou que era a deixa para discursar. Me viu com o celular na mão, achou aquilo estranho e me disse “mexendo no celular agora??? Dá isso aqui!” O celular continuou transmitindo de dentro do bolso da beca do Hermeto enquanto ele discursava para os formandos do New England Conservatory. Falou sobre a Música Universal, sobre a importância da educação formal que receberam, mas sem deixar de falar que para ele o que importa é a intuição, como se deve fazer sem planejar. É até irônico que bem nessa parte do discurso o som ficou praticamente inaudível de dentro do bolso dele, mas o fato é que ele passou sua mensagem com elegância e clareza. Depois fomos para a recepção onde ele fez questão de receber os músicos, fãs e estudantes na área que estava reservada para “autoridades”. Um dia inesquecível.

No dia seguinte, tomando café da manhã e falando sobre a cerimônia, em algum momento comentei sobre meu avô, falecido em 2001. Hermeto logo disse “ele está por aqui, tomando café da manhã com a gente”. Hermeto tem sua própria maneira de ver a espiritualidade, a vida, a morte, eu acho muito interessante a maneira que ele encara as coisas, a vida (o corpo) como um “carrinho para nos levar pelos caminhos”. Alguns minutos depois, uma música começa a tocar no som ambiente do hotel, meus pelos arrepiados: era “Reginella”, de Tino Rossi, uma das preferidas do meu avô. Eu respirei fundo e comentei com o Hermeto: “olha que coincidência, falamos dele, e agora está tocando uma música que ele adorava”.

Sem nenhuma surpresa, Hermeto respondeu: “mas eu não acabei de dizer que ele estava tomando café da manhã aqui com a gente?”

 

Flávio “Scubi” de Abreu está à frente da Scubidu Music, uma agência de música especializada em turnês internacionais, selo e gerenciamento de carreiras e é empresário do lendário músico Hermeto Pascoal.

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