GUITARRISTA DO BOOGARINS FALA SOBRE O NOVO DISCO E DESAFIOS DA PANDEMIA

Chega a ser estranho pensar que os Boogarins não estão na estrada. Com uma sólida carreira no Brasil e no exterior, a banda goiana sempre teve agenda cheia, com shows lotados no Brasil, Estados Unidos e Europa. Com as restrições impostas pela pandemia e a paralisação dos shows no mundo todo, a banda teve que repensar seus planos e acaba de lançar “Manchaca Vol. 1 – A Compilation of Boogarins Memories, Dreams, Demos and Outtakes from Austin, Tx”, um disco de raridades e sobras de estúdio que originalmente seria lançado de modo mais discreto, apenas para os fãs, mas que agora serve como um instrumento de conexão com sua audiência. Outra boa surpresa para os fãs é o mini documentário Manchaca, gravado em Austin durante o festival South by Southwest 2019, que fala um pouco sobre esse período importante da história da banda. Traz depoimentos e trechos de shows e foi disponibilizado no Youtube.

 A SIM São Paulo conversou com o guitarrista Benke Ferraz sobre o disco e o novo momento

Como foi o processo da escolha das músicas para o álbum Manchaca?

BENKE: O processo da escolha das faixas do Manchaca foi meio reverso. Todas as músicas são sobras dos dois últimos discos: do Lá Vem a Morte, que surgiu como um EP, e do Sombrou Dúvida. Era um material que a gente tinha carinho, mas conforme as coisas foram tomando seus rumos, algumas músicas não cabiam. Aquele som, que abre o disco, por exemplo é uma música que foi da mesma leva do Sombrou Dúvida, mas no momento da escolha das faixas ela soava inocente demais e acabou ficando de fora, assim como Espera Fala de Novo, que o Raphael canta.

O álbum tem a ver com a experiência de morar fora do país? Acha que esse disco é o fechamento de um ciclo?

BENKE: Manchaca era o nome da rua onde moramos em Austin. Depois, nos anos seguintes quando fomos lá gravar, o estúdio também ficava nessa mesma rua. Tem muito a ver com essa experiência de viver no exterior, mas não como habitante e sim de ser uma pessoa de fora que vem para visitar, se instala e começa a criar laços com o espaço sabendo que um dia vai sair. Acho que mais do que uma experiência de morar fora, tem a ver com essa imersão que a gente acaba se submetendo nesse fluxo de estrada, de estar ali reunido com quatro amigos fazendo som sem parar, fazendo shows e gravando. Todo mundo que está à sua volta não fala sua língua nativa, mas você tem que criar alguma relação, seja no estúdio ou fora dele. Acho que tem mais a ver com a experiência de ser gringo do que estar se situando no local.

Nos últimos anos vocês passaram boa parte do tempo na estrada. Como estão enfrentando esse isolamento e quais os impactos nos planos da banda?

BENKE: Essa pausa forçada fez a gente pensar muito sobre todas as coisas, o Manchaca tomou outra forma depois da pandemia, seria apenas um disco extra com dez ou onze faixas no Bandcamp, só pra download, para fãs mesmo. Mas conforme nossos planos foram interrompidos pela pandemia, a gente entendeu que era necessário, como você disse, encerrar um ciclo, já que a gente não começaria outro tão cedo. Entendemos que não deveríamos nos apegar àquelas músicas que estavam guardadas, aquele material de Austin. E não precisaríamos também nos apressar pra dizer qual seria o novo passo do Boogarins, uma vez que é também papel do artista, para se manter também são, conseguir se dar um tempo de adaptação, de entender o seu papel no mundo conforme ele vai mudando, algo que nesse momento ninguém sabe exatamente qual é. É difícil você saber o que fazer quando toda a sua interação passa por redes sociais, ferramentas que não são as nossas próprias. Então acho que a gente aproveitou esse tempo tanto para criar uma rotina em casa, que há sete anos a gente não conseguia ter, dar valor às pessoas que estão em casa e esperam a gente nessas viagens intermináveis e também ressignificar todo esse processo. E aí certamente a gente está dando um sentido de fechamento de ciclo para abrir as portas para o que há de novo.

Vocês sempre foram uma banda extremamente criativa e nunca pararam de produzir. Como estão lidando com isso nesse tempo de distanciamento?

BENKE: Nesse sentido o isolamento, a distância e a impossibilidade de se encontrar pesa muito pouco na perspectiva da criatividade e da produção. Ao mesmo tempo que somos uma banda que sempre tocou muito ao vivo, que improvisa, que cria coisas novas o tempo todo também somos aquela banda do lo-fi, que se grava com celular, com o mínimo de equipamento. Estão acontecendo várias trocas de demos, de processos e até parcerias com artistas amigos para a gente começar a pré-produzir um disco totalmente novo. Também acaba que com essa correia da estrada não conseguimos parar para executar os planos de verdade, as coisas que às vezes ficam no ar, então estamos lidando com isso da melhor forma possível, dando tempo ao tempo e sem querer inventar moda nesse período tão complicado.

Vocês moram em cidades diferentes? Como é ficar longe dos outros integrantes?

BENKE: Nós moramos no momento em três cidades diferentes: o Dinho e o Raphael estão em São Paulo, Ynaiã no Rio e eu em Recife. Já era meio assim, mas a questão é que, de fato, desde 2014, a gente não passava mais de um mês sem tocar, sem fazer um show. Tinha um período de férias mas sempre na primeira ou segunda semana de janeiro já havia algum show marcado, pra gente também manter o caixa e conseguir sobreviver. Então com certeza acontece um estranhamento por ficar longe, existe um peso, mas conforme a gente vai ficando mais velho, as turnês mais longas, as voltas para a casa ficam cada vez mais prazerosas.

Quando sai o segundo volume de Manchaca? Já tem planos para o futuro?

BENKE: O segundo volume do Manchaca deve chegar entre novembro e dezembro. Queremos aproveitar todo esse barulho que o volume 1 está proporcionando, manter o timing e continuar proporcionando algumas coisas novas para nosso público. 

O volume 2 vai trazer mais canções que foram feitas em estúdio mesmo, coisas da última sessão onde a gente aproveitou pouca coisa para o Sombrou Dúvida. Gravamos em uma casa em 2016, fomos para o estúdio em 2017 de onde saiu praticamente todo o disco, e em 2018 a gente meio que foi fazer um laboratório de composição, fizemos músicas em inglês, em português e tentamos recriar algumas sessões de improviso e transformar em canções. Acho que dessa segunda sessão só tem Cães do Ódio e Noite Bright no Manchaca  vol.1. Tem muitas canções que a galera escutava nas sessões de improviso e pedia no streaming.  

E essa parada veio em um momento oportuno, tanto no sentido criativo, como para podermos olhar para trás, ver todo esse trabalho que a gente está construindo sem parar, dar uma ressignificada nessa narrativa do que foram esses anos em Austin e tentar contar um pouco melhor essa história para o nosso público no Brasil. Seja porque a gente não tinha uma assessoria nesses anos que a gente estava gravando nos Estados Unidos, ou porque estávamos focados em produzir. Não registramos quase nada, temos poucos vídeos desses anos. Então, acho que é legal para nós criar esse contexto, esse imaginário textualmente e com as músicas e fazer a apresentação disso para o nosso público e um novo público que possa chegar mesmo.

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