INTI QUEIROZ: “VEJO A CULTURA COMO UM FATOR DE MUDANÇA A LONGO PRAZO”

A SIM São Paulo é uma catalisadora de encontros, reunindo profissionais de diversas áreas do mercado. A série Humans of SIM traz histórias de pessoas que frequentam a SIM e compartilham suas histórias e conexões potencializadas pelo evento. O episódio desta semana é sobre Inti Queiroz, professora, produtora, feminista e militante da cultura e pré-candidata a vereadora na capital paulista

 

Inti Queiroz sempre teve uma vida pautada pela música. A mãe, Tibet, é uma figura de destaque no heavy metal paulista (vocalista da banda Ajna passou também pelo Made In Brazil) ao mesmo tempo em que trabalhava em dezenas de projetos culturais. A influência da mãe se mostrou no talento para a música: Inti passou 15 anos tocando baixo e guitarra em bandas de rock, mas principalmente desenvolveu uma percepção de que havia muito a ser feito pela cultura e há mais de 25 anos vem construindo um currículo de respeito com ações voltadas às políticas públicas para cultura, direitos humanos e educação. Esses valores sempre foram objeto de discussão na família de Inti e continuam sendo passados para as próximas gerações. Sua filha, Naná Ywa Kaingang, de 23 anos, é escritora de ensaios, artigos e poesias e artista plástica digital com um trabalho voltado à discussão de suas raízes indígenas. Naná é também uma das criadoras da AYRENI – Abya Roda de Estudos de Narrativas Indígenas e do coletivo ‘Movimento Levante Indígena na USP’, que defende o ingresso diferenciado para povos indígenas na universidade.

Inti foi adolescente durante o movimento das Diretas Já. Nessa época, a menina punk começou a se expressar escrevendo fanzines. Sua militância ganhou força na Universidade de São Paulo, no início dos anos 90, quando cursava História. Inti voltou à USP em 2007 para fazer Letras e se reconectou com o movimento estudantil. Nessa época, o trabalho como produtora já estava a todo o vapor, com seu festival PIB (Produto Instrumental Bruto). “O nome do festival também entrega essa relação da música e da política na minha vida. Por isso também, acabei fazendo um mestrado e um doutorado sobre as políticas culturais no Brasil”, conta.

Inti foi se inteirando mais e mais sobre as políticas culturais, participando das lutas em âmbito nacional, estadual e municipal, tornando-se referência e palestrando sobre o tema por todo o país. Ajudou a escrever e criar o Projeto de Lei Municipal SP Cidade da Música e, por causa dele, passou a frequentar a Câmara de vereadores. “Conseguimos obrigar a Câmara Municipal de São Paulo a criar uma Subcomissão de Cultura, dentro da Comissão de Finanças e Orçamento, com reuniões semanais para fiscalizar a execução dos programas da Secretaria Municipal de Cultura. Isso me inseriu de vez no mundo da política real e abriu meu olhar para as políticas públicas de um modo mais geral”.

Sempre envolvida em projetos que ajudassem a melhorar as condições para os músicos e a cena cultural, também se envolveu em ações sociais, tendo participado da articulação do Movimento Luz Livre, que realizou o histórico ato “Churrascão da Cracolândia”, em 2012, visando combater a violenta repressão da PM aos usuários de Crack na região.

Diante da trajetória que traçou, em 2019 sentiu que havia chegado a hora de mergulhar na política de vez. “Estava preparada, com conhecimento técnico e coragem para tentar uma vaga na Câmara. Muitos partidos me convidaram para ser candidata nos últimos anos, mas escolhi o PSOL por ser o que tem uma visão mais vanguarda e que dá mais espaço para as mulheres”, comenta Inti, que conta com o apoio da Coletiva As Mina Na Frente na empreitada de disputar uma das 55 cadeiras no legislativo paulistano.

A ligação estreita com música e cultura fez com que o caminho de Inti se cruzasse com o da SIM São Paulo. Participou de todas as edições, em especial nos anos de 2016, quando fez parte da mesa de abertura, falando sobre o PL SP Cidade da Música, e em 2018 com seu festival, o PIB, como parte da programação de shows. “A SIM é um momento muito especial do ano para quem trabalha com a música. Sempre bom encontrar os amigos da música de todo Brasil e conhecer novos artistas. Isso fortalece o setor. Acho que a construção mais interessante que fizemos durante uma SIM foi em 2019. Conseguimos barrar a Medida Provisória do Bolsonaro que extinguia as empresas MEIs de música. Coincidiu dessa MP sair durante a SIM. Rapidamente reunimos diversas pessoas durante o evento e conseguimos ativar uma articulação direta com nossos contatos no Congresso Nacional e chegar no Rodrigo Maia. Em menos de 24 horas a MP caiu”, relembra.

Diante de um setor musical tão amplo como o brasileiro, Inti entende que se trata de uma cadeia produtiva que envolve não só os artistas e, principalmente, não só os grandes artistas. A grande maioria dos trabalhadores da música exerce sua profissão em péssimas condições de trabalho e renda, com muitos deles na informalidade. “O Brasil, e principalmente São Paulo, tem uma produção musical riquíssima e muito diversa, com muito potencial de exportação. As políticas públicas para a música devem observar essas questões e auxiliar os setores de música que não alcançam o grande mercado”, avalia.

Inti vê a necessidade de pensar em programas para trabalhadores da música, criando garantias para que se possa viver de música, como acontece em outros países: “Na França, por exemplo, trabalhadores da cultura recebem um seguro-desemprego especial para períodos que estão sem trabalhos remunerados. Com as mudanças no setor, principalmente depois do fim do disco e do CD, e com a música em streaming, as relações de trabalho e renda na música mudaram muito, mas a legislação brasileira não acompanhou essas mudanças. Nossas leis são ruins e em maioria visam apenas o grande mercado. Essa realidade precisa mudar. A música é um importante nicho de emprego, economia, desenvolvimento e formação cidadã e isso precisa ser previsto em nossas leis”.

Inti tem sido convidada para vários festivais e feiras de música para falar sobre desenvolvimento de políticas culturais para a música e acredita que o assunto precisa ser discutido por quem trabalha no setor. “É sempre importante termos mesas de debates sobre o tema. Mas também seria interessante atividades mais construtivas como fizemos no Festival Por do Som, em 2019 no Ceará, em que trabalhadores da música se reuniram com o poder público durante duas tardes inteiras para dialogar e construir juntos políticas para o setor a nível estadual e municipal. Fui convidada a mediar essa conversa ano passado e foi uma experiência incrível”.

Mesmo diante do turbulento cenário que visualiza, Inti é positiva ao falar de futuro do país: “Eu sou uma otimista. Talvez por isso me tornei uma ativista da cultura. Vejo a cultura como um fator de mudança a longo prazo. E é justamente por isso que ela é tão temida por

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