JULI BALDI FALA SOBRE REGRAVAÇÕES NA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

 

MEMÓRIA AFETIVA, RESGATE HISTÓRICO E A CRIATIVIDADE NA NOVA LEVA DE REGRAVAÇÕES DA MÚSICA BRASILEIRA.

Por Juli Baldi

Esse conteúdo é aquele tipo de papo que eu teria com os meus colegas do conselho da SIM São Paulo, tomando uma cerveja em algum bar pós-reunião. Mas como essa tradição por hora está suspensa e não aguentamos mais o Zoom, vou fazer a reflexão por aqui mesmo.

Nos últimos meses tivemos uma chuva deliciosa de novos artistas, principalmente da cena independente, interpretando grandes nomes. Julia Mestre com Agora Só Falta Você, da Rita Lee, Moreno Veloso com Fullgás, de Marina Lima, Liniker com Barato Total, da Gal, Fran e Chico Chico interpretando Itamar Assumpção, entre outros, além das regravações já consagradas do axé baiano, com Gilsons e Moreno Veloso criando versões lindas para clássicos do Olodum e Johnny Hooker para o Timbalada.

Mas de onde vem essa pilha de regravar músicas de outros artistas?

Respondendo a minha própria pergunta, vem de onde todo músico começa né, tocando composições de outras bandas, nada mais natural. Com o Youtube, muitos artistas, mesmo em fases iniciais da carreira, são descobertos e conseguem milhões de views por causa de versões. É arriscado, dá pra dar muito certo, mas também dá pra dar muito errado.

Não me refiro aqui aos intérpretes que gravaram músicas de outros compositores, e sim a versões, covers, regravações, releituras ou como queiram chamar, de músicas conhecidas que já foram sucesso (ou não) nas vozes de outros artistas.

As motivações podem ser diversas, desde resgate de álbuns como o projeto Replay que recentemente lançou o Acabou Chorare, dos Novos Baianos, ou o projeto Onze, que resgatou músicas inéditas do Adoniran Barbosa. Os bons exemplos são inúmeros e é uma prática supercomum no nosso mercado, assim como regravar músicas para trilhas de filmes e novelas. Outra possível motivação é para ir na onda de alguém e consolidar um imaginário parecido com o já trilhado por outros artistas ou também como uma estratégia de divulgação e aumento de público.

Mas eu gosto mesmo é de pensar que o estímulo principal é pela paixão a determinada música, aquela que você fica escutando 10 mil vezes por dia, que te atravessa tanto que chega uma hora que precisa interpretar com sua própria voz e visão de mundo.

Versões são sobre memória afetiva, sobre resgate histórico, sobre criatividade e sobre coragem.

Recentemente, Teago Oliveira fez de Esotérico uma versão para chamar de sua  e é um outro bom exemplo de canção com inúmeras interpretações. Até o próprio Gilberto Gil, dono da composição, tem duas versões da mesma música no álbum Um Banda Um. É o tipo de música que dá até pra fazer aquele meme: qual versão de Esotérico você está hoje?

Remixes e samples, dentro de suas especificidades, também entram na mesma lógica. Impossível esquecer do resgate do Belchior com a faixa AmarElo do Emicida ou da cantora Cláudia na faixa Desabafo do Marcelo D2.

Outro exemplo massa é o novo disco da Gal Costa, “Gal 75”, que é uma releitura dos seus maiores sucessos. Ouvindo Negro Amor com participação do Jorge Drexler cantando em português, me vi curiosa querendo saber de quem originalmente era essa música. Afinal, eu a conheci na versão dos Engenheiros do Hawaii e pesquisando a origem, aprendi que a original é do Bob Dylan, mas que Caetano Veloso fez uma versão para Gal Costa cantar no disco Caras e Bocas.  Não é bom demais ir descobrindo isso? Eu adoro!

Eu sei também o quanto versões podem causar ódio aos fãs da música original. Lembro quando trabalhava na Rádio Oi FM de Porto Alegre e fiquei envergonhada por não saber que Astronauta de Mármore do Nenhum de Nós era na verdade uma versão de Starman do David Bowie. Imaginem o quanto não fui zoada por isso. Mas poxa, na minha época tocava a versão recém gravada do Nenhum de Nós na rádio e não a original do Bowie. Por mais ruim que essa versão possa ser, asseguro dizer que metade da minha geração ouviu primeiro a versão do Nenhum de Nós, para depois chegar no Bowie.

O que me faz pensar que uma das coisas mais legais dessa questão tá na importância das regravações para que novas gerações tenham contato com determinados artistas. A minha última descoberta foi pelo Zé Ibarra. Ouvi no repeat por dias a Vai Atrás da Vida que ela Te Espera. Joguei no Youtube pra ver se tinha algum vídeo ao vivo e me deparei com uma versão do Guilherme Lamounier de 1974, que nem sequer existe no Spotify… e achei fantástico. (Além de estar curiosíssima pra saber como o Zé descobriu essa música e por que ele resolveu gravá-la. Alou, Zé?) Por ele, descobri uma coletanea em vinil duplo prensada na Alemanha, com uma curadoria sem pé nem cabeça feito por algum gringo, mas com músicas e artistas nacionais que nunca ouvi falar na minha vida. Não sei vocês, mas eu me emociono com esse tipo de descoberta.

A coluna não é necessariamente para dar um conselho, mas como de qualquer forma eu não tenho nenhum que pode mudar sua vida, eu deixo uma pergunta que pode te levar para um lugar gostoso: Qual música você faria uma versão e por quê?

Pra inspirar, compilei em uma playlist algumas das versões maravilhosas recentemente lançadas.

Boa viagem 🙂 

Juli Baldi é pesquisadora musical e diretora criativa do Bananas Music e do Mapa dos Festivais

 

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