JUP DO BAIRRO: A PODEROSA VOZ DA LUTADORA DAS ARTES MARGINAIS

Considerada uma das vozes mais relevantes da nova música brasileira, Jup do Bairro fez o show de abertura da oitava edição da SIM São Paulo, além de conduzir uma série de entrevistas para o evento. Ser celebrada pela crítica e pelo público, trazem certas responsabilidades, as quais Jup vê de forma muito consciente: “Eu tomo muito cuidado, até porque eu preciso devolver ela para o público, eu preciso entender que nós precisamos assumir o que nós comemos, o que nós vestimos, ouvimos, e principalmente, o imaginário que estamos criando. Eu associo muito a responsabilidade à representatividade e esses três gumes que ela pode se apresentar para a gente. Então a representatividade pode ser o motor de criação e impulso onde as pessoas se sentem contempladas e elas conseguem se enxergar, se ver e saber que também são capazes de fazer esses movimentos acontecerem. E ao mesmo tempo esses lugares da representatividade que podem deixar as pessoas estáticas, pensando:  A Jup já está lá me representando então eu posso deixar minhas perspectivas e responsabilizá-la se ela não alcançar. E também há nessa ótica da representatividade enquanto capital, de que você precisa estar bem sempre, você precisa estar feliz sempre, amando seu corpo incondicionalmente, você precisa estar em todos os lugares, e sempre, quando a gente percebe quando essas ações são feitas, elas são extremamente nocivas porque você quer um corpo travesti, mas quanto você vai pagar por aquele corpo travesti, pela presença daquele corpo travesti. O quão a presença daquele corpo preto travesti vai estar ali em um de dez para endossar essa diversidade que está sendo levantada e proposta. Então eu tenho entendido cada vez mais que eu, meu corpo, está cada vez mais cansado de hackear novas possibilidades, novos tipos de criação, de pensamento. Porque hoje eu me encontro na música e percebo que a indústria musical não se preparou para o ingresso do meu corpo, não se preparou para o que eu tenho para falar, o corpo que eu habito, os recortes múltiplos que acompanham a minha trajetória, então essa responsabilidade tem que ter muito cuidado porque não serei eu que vai salvar o país de todos os problemas que pessoas como eu passam e passaram mas é importante a gente dividir essa responsabilidade porque aí passamos a falar sobre possibilidades”.

Uma defensora das artes marginais, como ela já se definiu, Jup refere-se ao “inquietamento” que a acompanha desde os primeiros trabalhos, desde a educadora, na passagem pela moda e agora na música, tudo de maneira autodidata. “E tudo uma forma de redenção, de entender o meu espaço, de buscar e inventar esse espaço; eu acredito que todo mundo quer se sentir pertencente a algo e comigo não foi diferente, mas eu fui entendendo que eu precisava me sentir pertencente pelo menos a mim mesma, e são nesses lugares que eu tenho lutado de uma forma de guerrilha mesmo, de entender como canalizar todos esses meus pensamentos e tudo o que já passou pela minha vida usando da arte como uma válvula de escape, e eu poderia me sentir mais forte, reconhecer quando eu me sentia fragilizada, assim como é em um ringue.  Que nem sempre vamos ganhar, nem sempre vamos perder. Todo mundo vai ganhar, todo mundo vai perder, como diria Dilma Roussef”, completa.

Jup cresceu no Capão Redondo, bairro da zona Sul de São Paulo, onde a cultura hip hop é muito forte. O processo que a definiu como a artista que é hoje teve várias etapas. Começou na igreja evangélica, como muitos outros jovens, tendo contato pela primeira vez com o canto e o teatro. “A igreja tem um papel fundamental nas favelas e periferias oferecendo a arte e suas inúmeras possibilidades como um primeiro ingresso, e comigo não foi diferente”, conta.

As primeiras composições surgiram na adolescência, época em que Jup começava a flertar com música e poesia, mas de maneira despretensiosa. “Era uma espécie de terapia barata mesmo, de entender meu corpo, minha mente. Com isso entendi que mente era corpo, corpo era mente também, e foi me aparecendo esse lugar de criação. E a arte foi um lugar de eu me criar. Acredito que nós morremos e nascemos em muitos momentos da nossa vida. A partir do instante em que nós deixamos de acreditar e de pensar aquilo que já se foi e passamos a ser presentes em nosso tempo dentro dessas urgências do agora, eu acredito que a gente deixa de ser quem foi. E eu deixei de ser quem fui e eu devo muito à arte. A arte me salvou. Ela me salvou porque foi através dela que eu consegui ter o start e usar até como desculpa eu pintar unha, usar uma saia e começar a performar quem eu estava me tornando com a desculpa: Ai, não, é porque eu sou artista… E com isso eu fui me entendendo”.

A família de Jup teve papel fundamental em sua formação, um núcleo muito musical. A mãe gostava de samba e da Jovem Guarda. O pai, que tocou na bateria da escola de samba Camisa Verde e Branca, quando adolescente gostava dos grupos de punk anarquistas de São Paulo, o que refletiu no gosto de Jup por alguns grupos de rock, punk rock e hardcore.

Em 2019, Jup conseguiu sintetizar suas vivências e reflexões na potente faixa Corpo sem Juízo, que conta com a voz da escritora Conceição Evaristo e a participação in memorian da estudante Matheusa Passareli. “Foi uma das minhas primeiras composições, de quando eu estava entendendo o meu corpo no mundo. O que é esse corpo sem juízo, sem esse juízo cristão-judaico da perspectiva hegemônica do que deveria ser o corpo preto, do que deveria ser o corpo T, do que deveria ser o corpo periférico, então acredito que tenha sido essas inúmeras fontes que eu venho bebendo e alimentando o que poderia ser a Jup do Bairro e o que viria a ser o Corpo sem Juízo”, diz.

Foram dez anos até que Jup se sentisse pronta para lançar o EP. O trabalho também contou com nomes como Rico Dalasan, Linn da Quebrada, Mulambo, Deise Tigrona, Pininga, Badsista, todas as mais de 600 pessoas que acreditaram nesse trabalho através do financiamento coletivo. “Entendendo que além de já ter entregado inúmeros trabalhos anteriores, esse disco seria a partir de mim, da minha vida, da minha vivência, mas eu não queria que ele terminasse em mim. Eu queria que ele tomasse outros rumos e com isso eu fui pensando em uma narrativa que parte da história de Jesus, com nascimento vida e morte, não necessariamente nessa ordem, mas a distribuição desse corpo de entender esses apocalipses internos que passamos ao longo de nossas trajetórias. Uma história que acaba sendo até ser tragicômica da maneira que eu narro, mas que não é num lugar vampiresco de só jogar toda essa tristeza e dor, mas também nas delícias e alegrias de uma superação e superação não só de superar, mas de uma super ação, que eu precisei me movimentar, acreditar, abrir mão, e com isso comecei uma nova história que ela não é nova por começar do zero, pelo contrário, é olhando para trás e pensando em se movimentar para frente. O futuro como uma extensão do presente”.

A produção ficou a cargo da produtora paulistana BadSista, com quem Jup tem um entendimento quase que telepático, transcende o verbal compreende as intenções. “Nós somos muito parecidas musicalmente, temos gostos muito próximos, é sempre muito prazeroso trabalhar com ela, ela tem um sensor de captação que é muito íntimo nosso. Também temos uma capacidade de nos questionar muito grande”.

Mais uma vez, a rica diversidade de referências musicais de Jup tiveram reflexos em seu trabalho. “Quando eu comecei a finalizar as composições de Corpo sem Juízo, eu estava ouvindo muito heavy metal, muito Slipknot, Rage Against the Machine, Korn, e isso em pleno Carnaval, nos intervalos que eu tinha de hotel ou de me locomover. Eu estava ouvindo muito rock e eu queria isso no disco também, porque faz parte do que eu consumo e do que eu gosto e fui beirando também outros lugares do que eu já venho flertado como Deise Tigrona, Tati Quebra-Barraco, MC Naninha, e o rap, hip hop, minha escola desde sempre com Sabotage por quem eu sou extremamente apaixonada, Detentos do Rap, RZO, muitas coisas”, conta Jup, que também pinçou outras memórias da infância: “E naveguei também pelas referências que me eram colocadas na infância e que eu fui tomando gosto. Então não tem um dia que eu não ouça Cartola, Elza Soares, Nelson Gonçalves, minha cabecinha acaba sendo um liquidificador da história da música brasileira. E também pela minha família, pelas pessoas ao meu redor consumir tantas coisas diferentes, eu vou captando por osmose todos esses gêneros e referências musicais”.

Sobre os planos para o futuro, Jup manda seu recado: “Eu quero fazer música, quero me encontrar com pessoas, quero experimentar coisas novas, quero me entender, entender o que eu estou fazendo cada vez mais, quero atravessar, quero ser atravessada, e quero fazer uma extensão do que é esse corpo sem juízo juntando pedaços e transformando num megazord”.

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