VERÔNICA PESSOA ANALISA O K-POP NA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

K-POP: INDÚSTRIA, SUCESSO, IMAGEM E FUTURO

Por Veronica Pessoa

Um dos maiores sucessos da última década no universo da música pop mundial é o K-pop e seus astros, como as bandas BTS, EXO e a cantora BoA, considerada a rainha do gênero. Pra quem se interessa pela indústria da música – o show business – ou só quer ficar por dentro do som do momento, o estilo que vem da Coreia do Sul é inevitável e tomou conta dos players. A fábrica de hits e popstars não para e o mundo ainda não entende bem a que custo isso acontece.

Há vinte anos, o termo K-pop apareceu na revista Billboard para descrever os artistas de música pop da Coreia do Sul. Já ali aparecia o que pode ser visto como o primeiro resultado concreto do investimento do governo sul-coreano na difusão mundial da cultura daquele país. Daí em diante, o gênero musical não parou de crescer e já não ocupava mais somente as matérias da revista, como também as posições de destaque do ranking de sucesso. O K-pop chegava pra tomar o mundo e ele não vinha de brincadeira.

No entanto, a turma de artistas desses gêneros é tão jovem que arrisco a pensar que muitos deles estavam ali numa brincadeira juvenil e só mais tarde entenderam que o lugar onde se metiam – e os contratos que assinavam, na maioria das vezes ainda sob a tutela dos pais – não era coisa de criança. A formação dos artistas de K-pop geralmente começa quando os cantores e dançarinos ainda estão na pré-adolescência, com idades entre 13 e 15 anos. Grandes empresas, com anuência e incentivos do governo, recrutam jovens talentos, os contratam e os treinam para o sucesso. Muitos deles não chegam a ver a luz da ribalta, mas os que vêem ganham um mundo que parece de sonhos: turnês mundiais,dinheiro, sucesso, looks e fãs.

O caminho e treinamento até chegar lá não é fácil: esses jovens deixam as casas de seus pais – onde quer que sejam: Coréia, Japão, Tailândia e até Austrália! – e vão morar em alojamentos providos pelas grandes produtoras. A rotina é rígida e inclui aulas de dança, canto, musicalização, postura, inglês e coreano sem interrupções. Geralmente, são mais de 10 horas diárias e as folgas são quinzenais.

No documentário “Blackpink” sobre a banda feminina de maior sucesso atual de K-pop, disponível no Netflix, meninas quase adultas contam de seu cansaço e disposição na busca por um futuro na música. Ali aparecem o desejo inicial que as fez participar das audições, o sonho como mola propulsora para se manter nos treinos, a alegria do sucesso alcançado, o sofrimento de abdicar da escola e amigos da juventude e os medos do futuro quando não estiverem mais na tenra idade dos palcos pop do mundo. É mesmo assustador ver os dois lados dessa moeda: estão ali mulheres tão realizadas e frustradas ao mesmo tempo que não dá pra concluir se tudo isso é mesmo uma oportunidade rara, um caminho conturbado ou os dois.

O BlackPink é formado por quatro jovens: as sul-coreanas Jennie, de 23 anos, e Jisoo, de 24; Lisa, tailandesa, de 21; e Rosé, australiana, também com 21 anos. A banda esteve no lineup do Coachella 2019 e essas moças ocupam um espaço importante no universo do K-pop. Ouvi-las falar nos deixa intrigados: são mulheres sensuais que cantam e dançam com maestria e levam o corpo feminino para o grande palco, ao mesmo tempo em que os corações românticos das adolescentes se ressentem da falta de privacidade e de uma vida cotidiana menos atribulada.

O questionamento sobre o que as grandes empresas de K-pop estão fazendo com essa geração de jovens coreanos é pertinente. Eles partem de um desejo quase infantil pela ribalta e entram num turbilhão com escala industrial que valoriza um modelo quase irreal de pessoas: são corpos, vozes e passos ditos perfeitos e que não admitem muitas diferenças. Produtos em série sem muito espaço para variação. O Psy, cantor do megahit Gangam Style, chegou a ser um sucesso mundial em 2012 (ultrapassando até o americano Justin Bieber que lançava naquele ano um de seus maiores hits) mas, mesmo assim, o coreano não é considerado um ídolo nesta indústria por não estar dentro dos padrões de beleza e comportamento esperados para o K-pop.

É louvável o investimento local na internacionalização da cultura daquela nação, não é qualquer país que conquista o Oscar de Melhor Filme para além do Melhor Filme Estrangeiro, como aconteceu no começo desse ano com a Coreia do Sul. Provavelmente, nunca falou-se tanto e de forma tão positiva da Coreia do Sul. Mas a exportação e o aval de um padrão de beleza que coloca aqueles jovens como objeto dos mais variados desejos pode ser perigoso para o processo de construção de uma sociedade mais variada, inclusiva e colorida. As lutas pela equidade de gênero e raça estão apontando para um futuro possível que inclui a diferença e isso não é brincadeira.

Fica em aberto pensar nas diversas nuances do crescimento do K-pop no mundo e que caminhos ele irá tomar. Há a chegada às paradas de hits originários de uma nação não-branca, a produção de um padrão de artistas pouco variados, a inclusão de pessoas tão jovens num sistema industrial de fazer música, o posicionamento do astro pop como objeto de consumo. O que fazer com tudo isso e como conduzir esse fenômeno daqui pra frente não ficará a cargo somente de quem o produz, o ouvinte e consumidor global é parte fundamental dessa condução. Fica a oportunidade de conduzir esse mercado para um posicionamento ativo na construção de um mundo mais inclusivo, compreensivo, tolerante, acolhedor e diverso. O desafio está lançado.

Veronica Pessoa é jornalista, apresenta o programa Cenas do Mundo, na Frei Caneca FM, com sonoridades de diversos países, Com a Janela Música e Cultura, dá mentorias com foco no desenvolvimento de carreira para artistas e consultorias para empresas que investem em música no Brasil.

 

 

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