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KUNUMI MC, UMA DAS PRINCIPAIS VOZES DA MÚSICA INDÍGENA

Convidado para ser o representante da causa indígena na abertura da Copa do Mundo de 2014, o jovem Werá Jeguaka Mirim ficou conhecido mundialmente por levantar uma faixa com a palavra demarcação, que estava escondida em seu calção. Pouco tempo depois ele voltaria a ser notícia, agora conhecido como Kunumi MC, uma das principais vozes da música indígena brasileira.

Com apenas 19 anos, Kunumi já tem dois discos lançados: o EP de estreia, My Blood is Red (2017), e o álbum Todo Dia É Dia de Índio (2018). Além de rapper, ele também é escritor e tem dois livros publicados – um com o irmão, Tupã Mirin, chamado Contos dos Curumins Guaranis e outro que ele escreveu sozinho, Kunumi Guarani, mantendo assim a tradição familiar, já que é filho do filósofo, escritor e palestrante Guarani, Olívio Jekupé.

A música de Kunumi é poderosa, uma ferramenta para falar sobre os problemas de seu povo e divulgar sua cultura ancestral. Consciente de seu papel e de sua responsabilidade, prefere que sua música seja chamada de Rap nativo, o que faz todo o sentido.

“A música cantada pelos povos indígenas das aldeias é muito importante para levar uma mensagem para a sociedade, do que esse povo quer passar para o povo da cidade. O Bro MCs, primeiro grupo de rap indígena do Brasil, abriu esse portal para podermos estar juntos com eles. Acredito que eles, Oz Guarani, e eu somos os principais, porque começamos há muito tempo. Foi muito difícil para nós mostrar e divulgar para a sociedade porque a imprensa não se importava muito com a gente, que estava começando. Para eles isso parecia uma besteira, mas para nós essa música cantada pelos povos indígenas é uma missão. Quando cantamos, fazemos isso com muita fé esperando que um dia tudo possa melhorar, porque nosso povo sofre desde 1500 com a invasão e o roubo das terras que um dia foi nossa. Hoje queremos apenas demarcar uma área para que nossos filhos possam viver, que nossas mulheres possam ensinar as histórias, e preservar nossa cultura. Está em nossas mãos, dos jovens, e tento levar essa mensagem. Eu canto com sentimento, não é uma música cantada intelectualmente. Não estudei em uma escola boa, não fiz faculdade, mas sei que sofremos muito por saber que meu povo, desde antigamente sofreu violência, massacres, muita coisa ruim, fico triste e procuro expressar isso no rap”, diz Kunumi.

Além dos artistas indígenas já citados, Kunumi tem como influência nomes clássicos do RAP, como Racionais MC’s e Criolo, com quem gravou a música Demarcação Já – Terra Ar Mar. Até o momento, Kunumi também já lançou outros três singles: Xondaro Ka´aguy Reguá, Moradia de Deus e Força de Tupã.

“Quando canto rap acredito que é importante não perder minha essência porque rap não é do indígena, mas nós gostamos e não é problema usar. O problema é se fizermos algo de ruim naquilo que a gente gosta. A tecnologia, por exemplo, não é ruim. Ruim é não saber usar, usar para o mal. Usamos a tecnologia para preservar e fortalecer mais a nossa cultura. Quando canto em guarani, acredito que junto com minha voz, atrás de mim está toda a minha ancestralidade, os antepassados dando força para que eu lute todo o dia e leve essa mensagem bem forte, de que a gente precisa de ajuda. Somos um povo feliz, todo mundo aqui se conhece nas aldeias, mas sabemos que muitos parentes lá no Mato Grosso, no norte do país, estão precisando muito mais, pois estão sofrendo até hoje e pouca mídia mostra isso na TV. Então quando canto rap em guarani é muito importante. Muita gente acha que os indígenas não têm mais sua língua, que não existem povos em São Paulo, mas eles estão aí preservando a cultura, a língua e seus costumes”, diz, “É muito bom cantar em minha própria língua, porque as palavras têm poder. Hoje não faço apenas protesto contra o sistema, mas faço nos meus raps uma música xamânica, música de rezo, Moradia de Deus, é uma música de força, de agradecimento, de gratidão, uma música que fala sobre o ser, onde mora esse ser e a divindade, a força divina que a natureza tem, que o mundo tem, que a gente tem. Tudo isso graças a Nhanderu, Cada um tem um nome, a gente chama de Nhanderu, que é o nosso Deus, mas é a mesma força. Quem inventa os nomes é o ser humano, mas a força divina é a mesma. É bom cantar em minha língua para mostrar que cada um tem sua própria língua, isso é o rap nativo”, explica.

Em 2016 Kunumi foi o protagonista do documentário My Blood is Red, produzido pela britânica Needs Must Film, que levou o artista a diversas aldeias indígenas pelo Brasil para conhecer de perto a realidade de povos de diferentes etnias. Um desses encontros foi com a líder Sônia Guajajara. Ao longo dessa trajetória, ele pode ser testemunha da violência praticada pelos ruralistas, madeireiros, garimpeiros e políticos contra os indígenas. No paralelo, Kunumi se encontra com Criolo, um dos mais importantes rappers do país, que o abençoa e emociona em um encontro de dois gigantes de diferentes gerações.

“Gosto muito do rap porque é uma história contada, tem a ver com nossa cultura. O povo indígena sempre teve arte, música principalmente cantada em seus rituais com tambor e maracá, e eu não perdi essa essência, gosto de cantar fazendo protesto, mas além de ser um rapper que canta para o mundo, sou uma pessoa muito espiritual que acredita muito na força divina, em nosso ser e na natureza. Sem ela a gente não poderia viver. Se o ser humano destruir a natureza, a gente não consegue viver. Vamos cuidar. Em meu rap eu conto uma história, de como aconteceu de 1500 pra cá. Muitas pessoas falam de futurismo indígena, mas para o indígena viver, ser forte no presente, lembra das histórias antigas contadas pelos nossos ancestrais, nossos antepassados que até hoje são contadas pelos nossos curandeiros. São histórias antigas, milenares, que ali está todo o nosso modo de vida para viver o presente. Olhamos para o passado para viver o presente e o futuro a gente deixa nas mãos de Deus”

E o futuro promete. Com uma visibilidade e um reconhecimento que ultrapassou fronteiras, Kunumi está preparando o segundo álbum, que será lançado pela Natura Musical. Neste momento ele está no processo de composição das faixas e dos beats. A produção do álbum será assinada por ele em parceria com o músico Rod Krieger.

Durante a edição 2020 da SIM São Paulo, Kunumi MC falou sobre seu trabalho em uma conversa com Ciça Pereira, que teve a participação de seu pai, o escritor Olivio Jekupé. Essa entrevista está disponível no Expo Hall da Varanda Budweiser, aqui no portal da SIM. Lembrando que para assistir você deve adquirir uma assinatura da SIM Community, ou adquirir uma credencial Catch Up, com a qual você também tem acesso a todo o conteúdo da SIM São Paulo até o dia 31 de janeiro.

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