Marielle, afrofuturismo, mercado para latinos no segundo dia da SIM 2019

Foto: Hannah Carvalho

 

O segundo dia de atividades diurnas desta sétima edição da Semana Internacional de Música de São Paulo movimentou, mais uma vez, o Centro Cultural São Paulo.

Neste dia 06 de dezembro, a cantora e ativista Preta Ferreira, a artista plástica e ativista Dona Jacira e as assessoras parlamentares da deputada estadual Isa Penna, Pamela Machado e Annelize Tozetto, participaram da mesa mediada pela produtora cultural Karen Cunha. No centro do debate, que abriu o dia na Sala Jardel Filho às 11h, o legado de Marielle Franco: educação, cultura, saúde, segurança e moradia para os periféricos. Princípios básicos que Preta e Dona Jacira não só aplicam onde são líderes comunitárias (Ocupação 9 de Julho e Casa da Dona Jacira, respectivamente), como têm suas ações reverberando além de seu entorno. Rejeitando o papel de heroínas ou vítimas, usam de sua determinação para conscientizar e transformar a vida dos menos favorecidos. Já as assessoras contaram como é ser mulher negra e ativista de rua dentro de um parlamento, ambiente essencialmente masculino e branco. Elas ressaltam a necessidade de ocupar esses espaços, mantendo hasteadas as bandeiras e posicionamentos levantados por Marielle Franco e fazendo com que suas ideias, e de tantas outras mortas em razão do racismo e da misoginia, permaneçam vivas.

A América Latina entrou em foco na sala Oi Labsonica, com a mesa “Os desafios da música latino-americana no mundo, com a participação de diversos agentes do mercado no mundo, como Bruno Boulay (Midem/França), Flávio De Abreu (Scubidu/SP), Iggy Amazarray (Marshall Artists/Reino Unido), Joakim Morin (Festival de Jazz de Montreal/Canadá), Juliano Zappia (Yellow Noises/Portugal), Paula Abreu (Summerstage Festival/Estados Unidos), Petrit Pula (Brasil Summerfest/Estados Unidos), Ricardo Rodrigues (Let’s Gig/SP), Sol Pereyra (artista, Argentina).

Discutindo a ainda incipiente integração musical entre artistas brasileiros e seus vizinhos de língua hispânica, a mesa discorreu sobre barreira linguística, falta de apoio e até mesmo a falta de empenho de artistas brasileiros em buscar essa integração e mercados internacionais.

“Estamos tentando criar um circuito interno, já que os governo latino-americanos não fomentam a cultura. Os artistas estão gerando cruzamentos, fazendo colaborações. Estamos nos olhando, reconhecendo e juntando para fazer alguma coisa”, afirmou Sol Pereyra. “A Identidade cultural brasileira é muito forte. Pensando em soft power brasileiro, se explorássemos essa cultura seria muito mais eficiente para empresas nacionais que fazem negócios no exterior, por exemplo. Existem oportunidades que não são aproveitadas por causa dessa visão geral e do governo que não enxerga a cultura como essencial”, disse Iggy Amazarray.

Oferecendo uma perspectiva histórica e social sobre o mercado do funk no Brasil, a mesa “30 anos do Funk Brasil”, na sala Jardel Filho, teve mediação do jornalista Thiago Ney e a participação de Renata Prado (Frente Nacional de Mulheres no Funk), Rubia Mara (Evidência Paralela) e Bruno Ramos (Liga do Funk).

“É importante a gente valorizar essa cultura. Por mais que não pareça, o funk é um movimento político. A estética é negra, assim como o soul, nos EUA. O funk carioca tem muito tambor – por causa da relação com samba, enquanto o funk paulista é muito mais eletrônico – parecendo mais com o hip hop. Então a musicalidade do funk é totalmente preta. E movimento soul foi extremamente importante e político para a guerra antirracista nos EUA”, explicou Renata Prado. “A gente precisa articular, atacar as fontes de racismo”, completou Bruno Ramos. “Hoje o movimento funk é representado por cerca de 20 milhões de pessoas. Se linguagem é poder, nós somos poderosos.”

Com representantes do mercado como os artistas Bibi e Papatinho, Peter Strauss (UBC) e Tony Gervino (Tidal) e mediação de Monyca Motta (MM Rights Management), na sala Conecta Sympla, a mesa Créditos na Música Digital discutiu como recuperar e organizar informações sobre profissionais envolvidos numa gravação na era digital, e qual a importância dos créditos, não apenas para o público, mas para toda cadeia produtiva de um fonograma.

“Na indústria da música, ter a oportunidade de ter nosso credito e criar nosso portifólio, é nosso cartão de visitas”, comentou Bibi. “Para o artista, é importante ter um mínimo de conhecimento técnico, sair da zona de conforto e se organizar para procurar como cuidar”. “Artistas e produtores precisam entender como é importante esse primeiro passo de registro de dados e parceiros de quem participou na gravação, pois uma vez que esse dado começa a se disseminar com informação errada ou incompleta, é muito difícil de corrigir”, explicou Strauss. “Se você está fazendo um fonograma com parceiros, com seus amigos… Discutam o percentual de cada um”, recomendou. “12% dos membros do Tidal acessam créditos todos os dias, e isso é algo que está crescendo”, afirmou Gervino. “O próximo passo é nos aprofundarmos em créditos para estúdios, engenheiros de som, fotógrafos, cinegrafistas e etc”, revelou.

Oferecendo uma ocasião especialmente leve dentro da programação da SIM São Paulo, a mesa “Momento Bud: como grandes marcas usam a música como ferramenta para transformar o mundo para melhor”, teve mediação do consultor estratégico Coy Freitas, e a participação de Ricardo Dias (Ambev), Vitor D’Almeida (Oi Futuro) e Silvia Camargho (Calvin Klein).

“A música é um atalho para o coração das pessoas. A gente não vai mudar o mundo, mas quer criar conteúdo para uma conexão emocional, por isso estamos inaugurando um estúdio de Bud, baseado em duas premissas: do que um artista precisa? Uma demo e um estúdio para gravá-la. Por isso disponibilizamos um estúdio e tempo, para que o artista tenha sua demo gravada”, revelou Ricardo Dias, da Ambev. “O público pode e deve provocar um pouco mais as marcas, pedindo esta mudança, para que as marcas sigam aprendendo e sendo inspiradas e provocadas pelas pessoas.”

“A ligação da Oi com a música é hoje junto a festivais”, explicou Vitor D’Almeida, da Oi Futuro. “Estamos em uma sociedade partida, com as pessoas muito divididas. A música dá cola a nossas cidades, nosso país, é uma linguagem universal. Quando a gente vê essa catarse, a bagunça ordenada de todo mundo dançando, eu acho que a música pode ter um caminho”, afirmou o executivo, que antecipou ainda o lançamento de um edital Labsonica, a ser anunciado no dia 07 de dezembro.

Para a Calvin Klein, “o foco da marca através de música é passar mensagens por meio do endorsement de artistas, como no caso de Billie Eilish, que em uma campanha declarou que usa roupas largas, algo importante para meninas que não se encaixam nos padrões de beleza das redes sociais. Em uma câmera da Calvin”, afirmou Sílvia Camargho, da Calvin Klein.

Destaque nos showcases diurnos, Bia Ferreira fez apresentação emocionante e trouxe as participações de Preta Ferreira, cantora e ativista, e Doralyce, cantora e compositora. Reforçando as letras de suas canções, Bia fez um discurso forte contra o racismo institucional e a violência simbólica, arrancando gritos e aplausos de uma sala Adoniran Barbosa lotada.

Com mediação de Evandro Fióti (Lab Fantasma), a mesa “Festivais e projetos da diáspora negra e afrofuturismo” encerrou a programação, na sala Conecta Sympla. Na conversa, que emocionou o público presente, retratos das dificuldades nos trajetos de cada evento/festival, e da importância da coletividade.

“Entrar numa Batekoo amplia sua percepção sobre o que é ser negro. Amplia as possibilidades de negritude”, afirmou Artur Santoro, do coletivo Batekoo.
Para Martinha Carvalho, a Feira Preta “ocupou os espaços de representação financeira, de colocar nossos produtos e história em destaque. O diferencial do que a gente constrói aqui e trazer essa excelência, essa realeza dos nossos ancestrais.”

“O Festival Latinidades surgiu ao mesmo tempo de uma lacuna e uma utopia”, contou Jaqueline Fernandes, de Brasília. Gente como nós, que somos descendentes de um povo que chegou aqui na condição de escravizados, precisamos projetar futuro e projetar liberdade. E está acontecendo. A gente tem que continuar a ser ousado e ir desafiando, mesmo. A gente não pode desapegar das nossas utopias, temos de reafirmar nossas utopias cada vez mais”. “Somos um coletivo de pessoas negras, mas vamos discutir a integração de classe”, avisou Bia Nogueira, do coletivo Imune. Eu quero dividir as riquezas, e precisamos usar as tecnologias em favor das nossas lutas. Eu quero que os meus e as minhas, que sei que tem potencial de transformação, falem para muita gente. Temos uma arma na mão. E essa arma é o encontro, é a arte, é o amor. É no abraço que a gente se reconhece.”

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