J.P. CUENCA FALA SOBRE PARTICIPAÇÃO NO FESTIVAL NOVAS FREQUÊNCIAS

Com cinco livros lançados, João Paulo Cuenca é hoje um dos escritores brasileiros mais respeitados no mundo e considerado um dos melhores de sua geração. Suas obras já foram traduzidas para oito idiomas e lançadas em 11 países. Desde 2003 publica crônicas em diversos jornais brasileiros e também já escreveu e dirigiu teatro e cinema. Seu primeiro longa, A morte de J.P. Cuenca, no qual também atua, foi lançado em 2016 com exibições em festivais em várias partes do planeta.

Sempre à procura de novos desafios, Cuenca agora vai participar da décima edição do Festival Novas Frequências, que acontece de 1 a 13 de dezembro. O anúncio foi feito pelo curador do festival, Chico Dub, no décimo segundo episódio do Sim Blá. “Vou ao Novas Frequências praticamente desde o início, sou fã do festival, gosto de música eletrônica underground, experimental, desde muito tempo e acho que esse é o festival latino americano mais importante desse tipo de som. E hoje em dia, com dez anos de existência, podemos dizer que é um dos principais no mundo”, diz Cuenca.

A apresentação será uma colaboração com o artista sonoro Barulhista e vem como um desdobramento do um diário feito pelo escritor durante a pandemia. “A ideia surgiu no meio do desespero, da doideira da quarentena, quase como uma necessidade de emitir sinais de fumaça para se comunicar com o meio exterior”, conta ele. “Eu já estava escrevendo diários desde a metade do ano anterior, em Berlim, passei metade de 2019 lá. Isso foi ficando mais importante, cada vez maior. Entrei na quarentena escrevendo esses diários e em algum momento eles se transformaram em vídeos, que foram publicados pela Quatro Cinco Um, virou uma série na revista Zum e também foi publicada em meu site. A colaboração com o Barulhista, de quem sou fã, foi bastante orgânica. Ele me enviou uma música e eu coloquei como trilha de um dos vídeos. Agora nossa ideia é fazer uma parceria em que tanto eu colabore na música quanto ele na parte visual, no conteúdo que for lido, se houver. A gente ainda está conversando sobre isso”, conclui.

Enquanto pensa no formato da apresentação e desenvolve outros projetos, Cuenca também está lidando com uma polêmica: Recentemente ele voltou a ser notícia, mas dessa vez não por seus livros, mas por um tuíte em tom satírico publicado por ele em junho: “O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, uma adaptação da frase “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”, proferida pelo sacerdote e filósofo francês Jean Meslier, em 1761.
A frase gerou revolta e uma ampla ação judicial por parte de mais de uma centena de pastores da Igreja Universal, que pedem indenizações por se sentirem ofendidos. Mas para Cuenca, a discussão aqui é muito maior, diz respeito ao direito à liberdade de expressão e por isso mantém uma posição firme e decidida. “Acho que não há muita opção a não ser encarar essas coisas de peito aberto, cabeça erguida e sem recuar. Não vou abrir mão de me defender, não vou abrir mão de contra-atacar, não vou abrir mão de encarar esse caso como algo que me ultrapassa, acredito que não é só sobre a minha frase e esse escritor em especial. Acho que se isso se normaliza, se a sociedade brasileira normaliza isso, se o sistema jurídico aceita isso estamos todos ameaçados. Então o que me anima em relação a esse episódio é usa-lo para estabelecer um limite, isso não pode ser normal, isso não é normal, isso não é nem legal. Usar o sistema jurídico dessa forma contra uma pessoa, isso é assédio processual, é agir de má-fé, e isso é uma ação coordenada e mafiosa. Não vou recuar”, diz Cuenca.

O tuíte também foi usado como motivo de demissão pela filial brasileira do site alemão Deutsche Welle, onde mantinha uma coluna. Cuenca foi acusado de promover “discurso de ódio e incitação à violência” em um comunicado que já foi descrito por Cuenca como mentiroso e difamatório. “A Deutsche Welle foi covarde, eu lidei com essa atitude assim como a enorme maioria dos editores e jornalistas aqui no Brasil e na Alemanha também lidaram, com surpresa pela covardia e desonestidade da Deutsche Welle. Ela foi muito criticada não só aqui no Brasil, mas também na Alemanha. É escandaloso o que eles fizeram, é pulsilânime. Eles vão responder por isso no momento adequado, e no fórum adequado, na Alemanha. Eu, como todo mundo, fiquei muito surpreso, evidentemente eles fizeram o que fizeram sob pressão. Eles sabem muito bem que o que eu escrevi é uma sátira de uma metáfora, eles sabem exatamente que eu não estou clamando pelo enforcamento de ninguém, sabem que é linguagem figurada, sabem o que é uma metáfora””, diz ele.

“Acho que no Brasil é bastante comum que artistas das mais diversas áreas pensem duas vezes antes de emitir opiniões para não desagradar o dono do jornal, da TV, o dono da galeria, o dono da produtora, ou o governo. Eu não trabalho assim. Minhas posições são firmes e eu pago o preço que tenho que pagar por elas, mas não me deixo intimidar. Pretendo continuar assim”, conclui.
Por conta de suas opiniões assertivas, João Paulo já havia sido alvo de intimidações. “A Primeira vez que fui ameaçado de morte por alguma coisa que eu escrevi foi em 2007, quando publiquei um texto no jornal O Globo sobre o filme Tropa de Elite, que eu considero que plantou uma semente cultural, filme que eu considero que é um vírus cultural, uma das coisas que que ajudou a implantar o bolsonarismo, permitindo o avanço da direita neofascista no país porque naturalizou esse discurso e fez isso virar uma coisa de massa em um momento em que se colocar dessa maneira era uma coisa vergonhosa. As pessoas tinham vergonha de explicitar o seu fascistinha interior e a partir desse momento essa bússola virou”. E conclui: “Escrevi contra isso na época e fui ameaçado. Infelizmente não foi a última vez. Não vou deixar de escrever porque estão me ameaçando de morte ou porque posso perder meu trabalho. É o preço que se paga, mas na verdade não conseguiria fazer diferente. Eu não teria como escrever de outra forma não teria como me posicionar de outra maneira, não teria como ser outro escritor. Pago um preço alto por isso? Pago, mas eu não consigo nem imaginar outro caminho.”

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Categorias:

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

+ SIM NEWS

pt_BRPortuguês do Brasil