DESAFIOS E EXPECTATIVAS PARA A REABERTURA DAS CASAS DE SHOWS

Após seis meses parado, o setor cultural ensaia uma volta às atividades. Apesar do número de mortes e novos casos da Covid-19 continuarem altos, começam a existir discussões sobre a reabertura das casas de shows e os protocolos a serem adotados para que isso possa ser feito com segurança para o público, músicos e toda a equipe envolvida.

Apesar da insegurança, a volta já parece inevitável, pois existe um grande número de profissionais que ficaram sem renda durante esse período. “Não tem como ficar parado e manter o negócio funcionando, não há mais jeito pois não temos um suporte público. Estou participando ativamente nos debates sobre a lei Aldir Blanc, participei de algumas reuniões junto à Secretaria de cultura em nome do Grupo Vegas, mas só agora esse plano de retomada está sendo discutido e os editais sendo abertos, mas os pagamentos para pessoa jurídica estão previstos para dezembro”, diz Fabricio Nobre, programador das casas do Grupo Vegas, que já tem um planejamento de reabertura das casas em andamento para as casas Z Largo da Batata, Cine Joia, Blue Note e Bar dos Arcos.

Há cerca de dois meses a prefeitura de São Paulo ofereceu uma ajuda para alguns espaços culturais, com valores de 8 e 12 mil reais, mas nem todos os inscritos conseguiram o auxílio. No âmbito federal, recentemente foi aprovada a lei de emergência cultural federal Aldir Blanc, que nesse momento começa a distribuir o auxílio a profissionais, coletividades e espaços culturais. Porém a lei ainda é pouco compreendida, burocrática e em certo sentido excludente, pois nem todos os profissionais podem ser contemplados com os auxílios previstos.

Apesar das dificuldades, muitas das casas da cena independente optaram por permanecer fechadas e algumas delas tentam se manter a partir de soluções criativas, como o 74 Club, de Santo André, que tem realizado entrega de comida e bebida em domicílio, ou o Agulha, de Porto Alegre, que criou uma loja virtual. “Lançamos uma coleção chamada Salve Salve, com produtos que incluem camisetas, pijamas, baralhos, cervejas e nossa cachaça. Também criamos um cardápio para entrega para dar um incremento em nossa receita e assim proporcionar amparo aos funcionários. Ainda não nos sentimos confortáveis para receber o público”, conta Guilherme Thiesen, produtor e curador do Agulha.  Durante o período que está fechado o Agulha também desenvolveu um projeto de revitalização da rua em que eles estão localizados, que já está em fase de finalização e incluirá quatro praças.  Uma visão generosa e humanista em um momento tão difícil.

“É uma questão de pagar as contas, de movimentação financeira, vejo essas iniciativas como soluções de um empreendedor desesperado”, diz Leonel Mancha, proprietário da Casa do Mancha em São Paulo.  “Eu mesmo desmontei a casa, pensando em construir outra estrutura de trabalho. Com o ‘desgoverno’ desse país, não tenho como planejar uma atividade que me coloca em risco, assim como o público e o artista por estar em São Paulo, tenho esse privilégio pela história da casa que me permite construir outras narrativas para continuar trabalhando com música e não necessariamente com shows”.

Fernando Dotta, sócio do espaço Breve, está sentindo os impactos de manter a casa fechada, apesar de acreditar na importância de manter os espaços culturais ativos. “A gente não sabe até quanto tempo faz sentido segurar com a casa fechada. Muitos dos produtores não estão conseguindo segurar isso e as casas inevitavelmente vão fechar sem apoio, o que é uma pena, porque os espaços para as bandas independentes e autorais já são bem limitados, então se o Breve fechar, será resultado de não ter tido um suporte tanto de marcas quanto do governo”.

Dotta e o sócio, Rafael Farah, fazem parte de um grupo de músicos e produtores de casas de shows que trocam informações e impressões sobre o período atual. “A maioria pensa muito parecido nesse sentido de não querer voltar se houver um risco mínimo ou médio que seja. A grande maioria dessas pessoas não considera essa volta tão rápida. Mas quando a gente sai um pouquinho da bolha, o pensamento já é outro, vem aquele discurso de que a economia do setor cultural precisa voltar a girar e as atividades precisam voltar. É claro que há divergências, o setor cultual é gigantesco”, diz Rafael Farah.

“A noite volta sim, sou otimista. Daqui a três ou quatro anos, quando estivermos falando da Covid como falamos hoje da gripe suína, que já não oferece tanto risco. Esse processo que estamos fazendo vai criar alternativas, esse retorno vai ser pautado pela novidade, vai voltar já transformado pelo que nós passamos”, diz Mancha, enquanto Fabrício Nobre acredita numa volta muito mais próxima e arrisca um palpite ainda para esse ano: “A informação está começando a chegar, está sendo discutida agora e os donos das casas estão tomando pé e estudando e preparando os protocolos, mas a volta não será imediata. Se começarem a voltar, será em novembro ou dezembro”.

Mario Bross, um dos proprietários da casa Asteroid, em Sorocaba, divide o sentimento de falta de apoio e de informação: “Estamos sentados, esperando tudo isso passar, porque não temos apoio de ninguém. Nossas reservas financeiras acabaram no primeiro mês, e hoje achamos que a reabertura só vai acontecer quando tiver uma vacina, não tem jeito, balada, casa de shows é muita gente junta. Pensamos até em abrir de forma alternativa, com mesas, mas parece errado, as pessoas ainda estão se contagiando”.

Também não há consenso sobre quais decisões devem ser tomadas. “Não há um pensamento comum entre os músicos, produtores, empresários, estado e nem os consumidores, é uma relação muito conflituosa. Como o governo não decidiu o que fazer lá em março nem abril ou maio, essas pessoas terão que se organizar e se alinhar o máximo possível para viabilizar um plano de reabertura”, diz Fabrício Nobre

Existe também uma dúvida sobre como seria essa reabertura, já que não existe nenhuma garantia da presença do público, quais protocolos seriam adotados e se a reabertura parcial, com horários e lotação reduzida seria economicamente viável.

“Não dá para culpar ninguém mais por não trabalhar ou por não querer sair. Dá para fazer a escolha dentro do limite da sua sanidade mental, da saúde pública, do interesse público e da capacidade financeira de cada um, pois todos já passaram dos limites. É uma opção bem pessoal, mas as opiniões estão muito divididas. A gente ainda tem medo, tem empatia por quem teve problema. É inseguro, mas infelizmente, ficar em casa sem fazer nada não tem sido uma opção”, diz Fabrício Nobre.

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