PATRICKTOR4: “O MERCADO SÓ VAI EXISTIR QUANDO HOUVER ACESSO PARA TODOS”

Continuamos com a série #BehindTheSIM, que conta a história dos profissionais envolvidos na Semana Internacional de Música de São Paulo. No vigésimo primeiro capítulo, entrevistamos Patricktor4, membro do Conselho Consultivo da SIM São Paulo.

Patricktor4 começou sua história com a música, de acordo com ele mesmo, de um jeito inusitado: “Comecei a trabalhar com música por volta de 96, morava em Aracaju (SE). Eu pegava os bolinhos de panfletos dos eventos, das festas, dos showzinhos que eu achava legal do circuito alternativo da cidade e ficava distribuindo, andava com a mochila cheia de flyers diferentes.”

Patrick, que hoje é DJ, produtor e radialista, ficou conhecido na faculdade como alguém que sabia de todos os shows e eventos interessantes na cidade. Ele associa a memória boa com a juventude mas explica que, mesmo muitos anos depois de se formar em Rádio e TV, a vontade de trabalhar com música e entretenimento nunca diminuiu. Além de discotecar em festas de amigos com CDs emprestados e, posteriormente, organizar suas próprias festas, Patrick também teve banda (fundou a Naurêa, em 2001) e circulou dentro e fora do Brasil com seus diferentes projetos. É no Baile Tropical, entretanto, que está a essência do DJ. “Desde 2010 faço o Baile Tropical, está completando 10 anos agora. Um circuito de festas já com mais de 150 edições, já teve em 12 países, mais de 40 cidades diferentes apresentando novos DJs, novas bandas, alguns artistas consagrados em todos esses lugares”, conta.

Membro do Conselho Consultivo da SIM São Paulo há 2 anos, Patrick, que já perdeu a conta de quantas edições compareceu, define o evento como “uma vitrine, uma plataforma de promoção e de articulação do mercado da música no Brasil e, sobretudo, da conexão entre os agentes de dentro e fora do país”. Ele também revela que foi durante o evento que nasceu a ideia para um coletivo de radialistas do Brasil, posta em prática agora: “Uma das premissas fundamentais da SIM é fortalecer redes e potencializar encontros. O RADIALIVRES, além de ser fruto de esforços e dedicação destes fazedores do rádio, foi iniciado numa das mesas da convenção em 2018 e surge em meio a este caos político, sanitário e de representatividade que vivemos no Brasil. Sentimos a necessidade de organizar uma entidade preocupada em articular radialistas, jornalistas e comunicadores ligados à música e ao fazer radiofônico para fortalecer suas pautas, e naturalmente potencializar a rede popular de grupos, coletivos e associações que estão se mobilizando neste momento”, conta.

Indo um pouco mais além, o DJ exemplifica como acredita que a SIM contribui na construção de um mercado mais justo para todos: “A gente tem uma música muito potente, diversa. Tem muito público, tem um país de proporções continentais, mas acho que ainda está muito longe de conseguir potencializar a cadeia estruturada como é em outros lugares, como Europa e EUA. [Nestes lugares] Você consegue se conectar em todas as regiões, ir em rádios, aparecer em uma TV local, estar nas capas dos cadernos de cultura… Isso ainda é muito incipiente, só quem consegue alcançar [no Brasil] são nomes muito grandes e, pra mim, isso não é mercado. O mercado só vai existir quando for possibilitado o acesso para todo mundo, quando com o investimento em articulação e trabalho profissional você conseguir chegar nesses lugares aí. E é assim que eu enxergo a SIM, ela tem uma capacidade muito grande de articular isso e conseguir fomentar isso”.

Ainda no comparativo com mercados internacionais, Patrick reflete sobre a estrutura do meio underground brasileiro. Para ele, nos inspiramos muito na estética sonora das cenas de cidades como Berlim, Londres e Nova Iorque quando deveríamos ter, na verdade, buscado inspiração na maneira que esses circuitos se estruturam e dado espaço para que a identidade sonora brasileira aflorasse. “Se você imaginar que Salvador passou todo o auge do axé tentando ser contra o axé e a cidade aconteceu para o mundo quando ela mostra um axé alternativo com essa cena mais recente de ÀTTØØXXÁ, de Baianasystem, você tem aí o exemplo de tudo isso. Belém do Pará não começou a aparecer para o Brasil com o indie, o rock, o hip-hop paraense. Foi quando eles desenharam um alternativo ao brega local. Partindo desse parâmetro, você entende que existem outras maneiras de enxergar essa música brasileira alternativa, o novo pop do Brasil, se tiver condição dessas localidades terem autonomia para dizerem quem são”, pondera.

E é exatamente a criação dessa estrutura que o produtor enxerga como um dos grandes desafios da música brasileira atualmente: “Acredito que há uma grande dificuldade de existir uma cadeia de pequenas casas. Casas de 300, 500, 700 pessoas fazem com que o público se junte por causa do conceito do lugar e esse público faz com que artistas novos consigam acontecer. Porque artistas novos que têm trabalho descolado de uma obrigação de mercado ou de gravadora são artistas que possibilitam essas renovações estéticas, eles tocam pra pouca gente.”

À respeito da revolução trazida pelo coronavírus, Patrick pensa que o momento é de reflexão e atenção mais do que qualquer outra coisa. Ele incentiva que observemos outros mercados e linguagens, como os games, em busca de soluções criativas para os problemas da música ao vivo — para o DJ, as transmissões ao vivo sozinhas não representam a solução. “As estruturas de bate-papo, por exemplo, de reunião, para fazer festinhas. É uma outra experiência… eu não tô vendendo performance, para que as pessoas vejam o quão tecnicamente bom eu sou como DJ. Eu estou juntando as pessoas ao redor da música para elas interagirem entre elas em um chat de bate-papo. Essa perspectiva de tentar encontrar o prazer e a diversão em uma outra coisa que vai ser diferente… vamos ter que ficar atentos à todas as possibilidades de mudanças para que a gente consiga trazê-las para nossa atuação”, finaliza.

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