REVISTA SIM SÃO PAULO 2019 -FUNK, 30: DA FAVELA PARA O MUNDO

POR ISABELA YU // FOTO: BADSISTA POR ALEX LAMBERT

Neste 2019, há pelo menos um motivo para celebração: os 30 anos do funk no Brasil. O aniversário é marcado pelo lançamento do primeiro volume do LP “Funk Brasil”, do carioca DJ Marlboro. A data exata se perdeu no tempo, mas o fato é que a coletânea do produtor então iniciante se espalhou e ajudou a popularizar um gênero que hoje é dos mais ouvidos e influentes do país.

Hoje, o estilo musical (ao lado do sertanejo) domina os plays e os corações dos ouvintes, segundo dados de pesquisas e plataformas de streaming. O funk esteve no Rock in Rio, que contou com performances de consagrados (Cidinho e Doca), mainstreams (Anitta) e, ainda, proporcionou um encontro de gerações (MC Carol, Heavy Baile e Tati Quebra-Barraco).

Está até na Netflix, na série “Sintonia”, uma coprodução com a Kondzilla, produtora multiplataforma criada por Konrad Dantas e que se tornou o quinto maior canal do YouTube no mundo (52 milhões inscritos). “Eu quero ocupar todos os espaços que for possível. Se alguém já conseguiu, então, também consigo. Esta série foi isso. Se alguém me desafiar, vou lá e faço”, disse Konrad em entrevista ao jornal O Globo.

“Antigamente, as criancinhas tinham o sonho de ser jogador de futebol, mas é muito difícil de virar realidade. Hoje, querem ser DJ”, afirma Iasmin Turbininha, atualmente a produtora e DJ carioca mais influente do funk e uma das expoentes do 170 bpm (carinhosamente apelidado de “putaria acelerada”). Há alguns anos, as batidas por minuto começaram a aumentar, e estão bem distantes do electro-house e miami bass que encontramos em “Funk Brasil”, num já distante 1989.

Os precursores da aceleração, com o funk 150 bpm, são os DJs Polyvox e Rennan da Penha, este último idealizador do Baile da Gaiola e que recentemente foi condenado a quase sete anos de prisão por “associação para o tráfico de drogas” – condenação baseada em provas no mínimo frágeis.

Em 2003, o jornalista carioca Silvio Essinger publicou “Batidão – Uma História do Funk”. A obra, junto com outras como “O Mundo Funk Carioca”, lançada em 1987 pelo antropólogo Hermano Vianna, é dos poucos livros disponíveis sobre o assunto.

Naquela época, Silvio dedicou o registro para “quem não gosta de funk, quem não vê nada além de barulho, delinquência e analfabetismo”. Passados 15 anos de sua publicação, o jornalista enxerga algumas mudanças, ao mesmo tempo em que as críticas permanecem as mesmas: “O funk definitivamente faz parte da música brasileira. Ele está no sertanejo, no arrocha, nas base do novo pop nacional catapultado pela Anitta. (As críticas) são quase sempre as mesmas, porque o funk continua livre, indomável e só faz o que quer”.

Em 1987, Hermano Vianna havia feito amizade com o DJ Fernando Luís Mattos da Matta, conhecido como DJ Marlboro. Hermano presenteou o amigo com uma bateria eletrônica herdada do irmão, Herbert Vianna, vocalista dos Paralamas do Sucesso. “Ele foi na rádio e disse que estava escrevendo sobre o movimento do funk carioca. Me pediu para levá-lo aos bailes. Não deu outra, começou a me acompanhar e a escrever. Levou um monte de gente, como Regina Casé, Fernanda Abreu, Fernanda Torres”, relembra Marlboro.

O DJ era um dos expoentes dos bailes blacks que desde os anos 1960 faziam dançar boa parte da população do Rio. Há um certo consenso de que o reconhecimento midiático do movimento veio com a reportagem “Black Rio – O Orgulho (importado) de ser Negro no Brasil”, publicada em 17 de julho de 1976 no Jornal do Brasil, pela jornalista Lena Frias. O nome “funk” é emprestado do gênero americano, e o funk que em seguida iria ser conhecido como funk carioca fazia uma mistura de soul, blues, funk e r&b e, no final dos anos 1980, ganhou nuances dançantes da house, do techno, do electro e do miami bass.

“O funk representa a união de culturas. Nas primeiras músicas, usava samples, então não poderia ter preconceito, pois uma base poderia se misturar com outras coisas”, conta Marlboro. Elástico também em temas, o funk hoje tem suas múltiplas vertentes: neurótico, melódico, cômico, proibidão, ostentação, feminista, LGBTQIA+, brega, arrocha, entre outros.

Se a participação feminina um dia foi reduzida, hoje ela é protagonista e fundamental para a sua existência. Nomes como Deize Tigrona e Tati Quebra-Barraco são grandes referências para as jovens.

No caso da Mulher Pepita, ex-dançarina, atual cantora e autora do livro “Cartas pra Pepita”, a música tem papel fundamental para a representatividade. “Ele abraça todo mundo. Mas acredito que para as mulheres e para comunidade LGBTQIA+, o funk tem um papel ainda mais especial. Falta às pessoas compreenderem isso um pouco mais, o funk é a nossa forma de gritar ‘olha, estamos aqui, me respeita, sou isso aqui e pronto’.”

No funk desde a adolescência, MC Carol decreta: “Sou a dona do meu corpo. Estou cantando sobre a minha sexualidade, meus desejos. Os homens cantam sobre isso o tempo todo, mas quando sai de uma voz feminina, acham chocante. Pois eu vou falar, sim, sobre sexo e sobre o que eu gosto”.

Quem também começou na adolescência foi MC Tha, na zona leste paulistana. No disco de estreia, “Rito de Passá”, ela faz uma mistura envolvente de funk melódico com pitadas de anos 1990 e tambores de umbanda. Ou seja, mais desacelerado do que o 150 bpm que toma conta do funk do Rio. MC Tha é a prova que o funk influencia boa parte do pop feito no Brasil. “Muitos ficam confusos, não sabem onde vão me encaixar. Como uma funkeira? Uma cantora de MPB? Podem falar que sou cantora de MPB, porque funk também é uma música popular brasileira.”

Com 30 anos de vida no Brasil, o funk é o som do presente – e, também, do futuro: tem uma capacidade única de englobar e expressar coisas que são identificáveis para gente de todos os tipos. Seja no underground, no mainstream, no exterior ou na televisão, o funk carrega um pedaço da história nacional da segunda metade do século 20.

Para a DJ e produtora BadSista, a cabeça do jovem contemporâneo está mais receptiva. “O funk é o som do futuro por causa do seu poder de se reinventar. É perfeitamente possível entender a repetição hipnótica de algumas batidas, que é também uma marca da house e do techno, proporcionando o êxtase, carregando o ritmo e o seu corpo.”

Segundo levantamento publicado pelo Spotify em 2018, há três anos o consumo de playlists de funk nacional cresce também no exterior –Estados Unidos, Europa e América Latina aparecem como as regiões com grandes ouvintes de nomes novos, como MC Fioti e MC Kevinho. Se no passado a identidade desse tipo de música partiu de referências internacionais, as produções brasileiras agora estão sendo incorporadas por artistas de fora. Cantoras como Madonna e Cardi B publicam frequentemente funks brasileiros em suas redes sociais.

Para os próximos 30 anos do funk, o desejo de Iasmin Turbininha, a DJ sensação da comunidade de Nova Holanda, é só um: “Que ele seja ainda bem mais respeitado. Temos de cuidar do nosso legado. Do favelado, do pobre, é nosso. E o funk é cultura”.

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