RICARDO RODRIGUES FALA SOBRE EMPATIA NA COLUNA OUÇA ESSE CONSELHO

OUÇA ESSE CONSELHO é um espaço livre para opiniões, análises, reflexões, desabafos, sugestões e acolhimento. Toda semana, você encontrará aqui textos escritos por membros do Conselho Consultivo da SIM, refletindo a multiplicidade de opiniões e vozes.

EMPATIA E REDES CONTRA O BAIXO ASTRAL

Por Ricardo Rodrigues

Se me fosse pedido um conselho em 2019, provavelmente hoje a pessoa estaria bem brava comigo…  Otimista nato, nem nos pesadelos mais desconexos eu apostava que uma pandemia viria para abalar estruturalmente o Mundo e especialmente o mercado da música já em 2020. Mesmo com uma epidemia de reacionarismo já implantada e se espalhando pelo Brasil (e pelo Mundo, outra pandemia?), tínhamos um mercado em plena ascensão mesmo frente à tambem forte crise econômica. Ao menos para o setor do Midstream (geral já absorveu esse termo, né?), a profissionalização já vinha mostrando sinais de resultados estruturais e novos modelos de negócio, rentabilidade através de conteúdos, relações com marcas e mesmo o fonográfico já vinham se mostrando fontes viáveis para complementar o ao vivo que sempre viabilizou o rolê. Porém, como todes já sabemos, a rasteira está sendo grande, longa e dolorosa.

Passar semanas cancelando shows, projetos, turnês internacionais e vendo todos os planos se desmoronarem, não foi brincadeira. Mas uma coisa que não sai da minha cabeça desde o começo dessa “bad trip coletiva escrota em que a gente se meteu”, é que a EMPATIA será a palavra chave para superarmos. Mais que contratos assinados, o que regula de verdade as relações do mercado da música é a confiança. Não são poucas as grandes ações, carreiras e parcerias, que se consolidaram sem assinar nenhum papel. Mesmo com as diversas histórias de tretas homéricas e processos milionários, a confiança é a grande moeda nessa rede. E antes de qualquer cancelamento, antes de ler qualquer cláusula de contrato, conversar, acolher e compreender a situação em que cada contratante ou parceiro se encontrava era sempre a primeira ação.

Talvez nos últimos anos, seja com o crescimento com o streaming, seja com a inovação nas estratégias de marketing digital, uma certa confiança tomou o mercado em uma crença onde “se eu focar aqui no meu trampo vai rolar”, e para muitos rolou mesmo. Vimos muitas iniciativas dando certo, criatividade, inovação e empoderamento, estruturando esse mercado do meio e vendo ele cada vez mais dialogar como Mainstream sem medo, com grandes conquistas. Porém, estar trancado dentro de casa parece ter feito muita gente refletir como é difícil manter a cabeça no lugar e manter suas estruturas firmes no momento de abalos estruturais. Foi fácil perceber logo de cara como esse crescimento empreendedor não veio junto ao fortalecimento do trabalho em rede e de uma compreensão macro de cena, muitos se viram totalmente sozinhos, e o legado de articulações nacionais estruturantes do início dos anos 2000 havia sido perdido, muitas conexões se enfraqueceram e quem chegou mais recentemente sequer tinha noção desse histórico. Mas seria essa uma oportunidade reconexão? Parece que sim.

Desde os primeiros meses dessa eterna “quarentena”, ações em rede começaram a pipocar por todo o País. Seja para realizar festivais online e segurar o povo em casa, seja para fazer campanhas de arrecadação de ajuda para os mais vulneráveis, foi lindo demais ver que esse espírito estava ressurgindo rápido. Festivais, Casas de Show, Agências, Selos, Radialistas e muitas outras redes que já foram fortes agentes articuladores de políticas públicas voltaram a se encontrar e um clima de nostalgia já animou muitos destes. Não é preciso ir muito longe para identificar como importantes articulações como a Rede Música Brasil, o Circuito Fora do Eixo e a rede de Pontos de Cultura foram fundamentais para formar boa parte dos agentes que hoje tomam a frente de muitos eixos do ecossistema da música brasileira e agora podem conectar decisões transformadoras em larga escala.

Mas alguns bons ensinamentos dessa época também podem nos ajudar a não cometer os mesmos erros e construir fundações mais sólidas. Empatia é exatamente conseguir entender a realidade do outro como um todo, não analisar apenas superficialmente e colocar as suas intenções na frente. Empatia é saber que uma negociação só faz sentido fechando a conta para todos os lados, porque se você olhar só o seu, depois não vai ter um sistema funcional para que o seu próprio desenvolvimento se apoie. Seja no mercado fonográfico, seja no ao vivo, ou no de conteúdo, os fluxos de retroalimentação devem sempre entender como um está diretamente sendo estimulado pelo outro o tempo todo, e talvez esse abalo sísmico que estamos passando seja também uma oportunidade para nos reerguermos de forma mais solidária, justa e colaborativa. Só penso nisso gente, e se puder te dar um conselho hoje, é antes de propor qualquer projeto e, ainda mais, questionar qualquer negociação, tente ver o todo, tente mesmo entender o lugar de onde vem essa idéia, entender que sempre é possível criar uma sinergia e fazer mais se fizermos juntos. Aff, Ricardo seu mala sonhador otimista, acorda pra vida…

Ricardo Rodrigues é empresário, agente e produtor cultural, diretor geral do Festival CONTATO e sócio-fundador da Let’s GIG – Booking & Music Services

 

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