Saúde mental, censura e iberoamérica no último dia de conferência da SIM 2019

Neste sábado, 07 de dezembro, o último dia de programação de mesas e painéis da Semana Internacional de Música de São Paulo teve início abordando a saúde mental no mercado da música, com a participação especial do Music Industry Therapist Collective na mesa “Saúde mental – precisamos falar sobre isso”. Mediados pela jornalista Fabiane Pereira, os artistas Tiê, Juliana Strassacapa e Mateo, ao lado do produtor Dudu Borges e do psiquiatra Marcelo Altenfelder, levaram suas experiências pessoais para o debate, trazendo diferentes tratamentos: da alopatia clássica ao xamanismo ancestral.

A pressão do trabalho e das pessoas no mercado da música e como isso reflete não só na saúde mental dos profissionais mas também na criação e nos resultados foram debatidos durante o painel. Dudu Borges falou sobre a responsabilidade de trabalhar com nomes que estão no topo das paradas e a necessidade de dosar melhor expectativas de sucesso e não se esquecer da importância de estar perto da família, dos amigos, das coisas do dia-a-dia, que trazem alegria e felicidade. A cantora Tiê também mencionou a cobrança por números como um gatilho difícil de lidar em alguns momentos de sua carreira. Juliana Strassacapa comentou a importância de aprender a falar “não” e dar tempo às coisas, enquanto seu companheiro de banda Mateo dividiu sua estratégia de fazer um pouco de cada coisa por dia para diminuir a ansiedade.

Raphael Vandystadt, head na área de Relações Institucionais e Sustentabilidade na agência Africa, apresentou os resultados do Algoritmo da Vida. O projeto que, desde fevereiro de 2019, busca sintomas de depressão nas redes sociais para ajudar na prevenção ao suicídio, já detectou quase 300 mil menções que potencialmente usam a linguagem da depressão e ofereceu apoio profissional aos perfis identificados.

Discutindo “Como combater a censura cultural”, André Naves (Defensor Público Federal), Augusto Botelho (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), Camilo Rocha (jornalista), Mayara Silva (advogada) ocuparam a sala Labsonica para tratar das formas contemporâneas de censura e de como se defender delas na Justiça. “Censura não é mais a censura clássica, daquela figura do censor rabiscando as músicas”, comentou André Naves. “Às vezes a censura é a contenção de verba, a diminuição de financiamento, o cancelamento de edital, ou mesmo quando os governos manipulam as consciências das pessoas e as mesmas aplaudem a censura”, disse. “Quando falamos de censura, ainda falamos da cultura branca. Quando é cultura negra a gente já fala em criminalização. Seja com capoeira, samba ou, agora, com o funk”, salientou Mayara Silva.

Mas o que fazer em caso de censura? “Antes de mais nada, filmar tudo, registrar tudo. E fazer B.O.”, indicou Augusto Botelho. “Encontrar promotores bons e preocupados com a representação da lei é uma loteria, e um dos problemas do sistema de justiça é a falta de acesso a essa justiça, principalmente em pequenas cidades”, disse. “A mobilização em cidades pequenas é muito importante”, sugeriu Mayara. “É essencial começar a pensar em articulações e acessar mecanismos internacionais de denúncia, que geram repercussão. Ainda que não venham penalidades para o governo, vem o constrangimento”, sugeriu.

Na sala Conecta Sympla, a mesa “DATA SIM: casas abrem seus números” contou com representantes de casas noturnas, como Arthur Amaral (Casa do Mancha/SP), Filipe Giraknob (Aparelho/RJ), Guilherme Netto (Agulha/RS), Junior Carvalho (Grupo Vegas/SP), Leticia Rezende Ferreira (Laboratório 96/MG) e Vince De Mira (Commons Studio Bar/BA). O papo teve mediação de Dani Ribas (DATA SIM).

Com participação de Merlijn Poolman, prefeito da noite de Goningen (Holanda), e tendo como ponto de partida a pesquisa do DATA SIM, “O mercado da música de São Paulo: parte I – espaços para música ao vivo” (2018), a discussao foi aprofundada com dados trazidos por representantes de casas de outras regiões. “A função de um prefeito da noite é muito importante, tanto para fazer a conexão entre poder público, casas noturnas e público, como para viabilizar a cena noturna e provar que a noite movimenta a economia das cidades”, explicou Merlijn.

Na sala Labsonica, a mesa “SIM Transforma: Música em zonas de conflito” reuniu nomes de áreas tão distintas como Caxias do Sul, Natal e periferia de São Paulo para discutir como ações envolvendo a música podem promover a queda de barreiras sociais e geográficas, além de transformação social. Com mediação de Murilo Muraah (fábricas de Cultura/Poiesis) e participação de Marabu (artista/SP), Chiquinho Divilas (Festival música de rua/RS), Jomardo Jomas (Festival Música Alimento da Alma – MADA/RN) e Kaneda Mukhtar (Asfixia Social/SP), a mesa levantou questões importantes como a importância de levar programação musical e entretenimento para dentro das escolas públicas e diminuir o distanciamento do acesso à cultura e à informação.

“Somos um dos países mais violentos e desiguais no mundo. Precisamos passar mensagem que gere impacto positivo e estimule coletivos locais a produzirem sua própria arte, especialmente entre os mais jovens”, afirmou Kaneda. “Nossa luta é para que as armas e os livros cheguem antes das drogas”, completou. “Nosso papel como produtor cultural é diminuir essa distância e fazer com que chegue às pessoas”, afirmou Jomas.

Murabu defendeu o desenvolvimento técnico para mudar a estrutura e aumentar a renda dos artistas. “O lado artístico é fundamental, mas a profissionalização é essencial. É importante que as pessoas saibam como transformar as coisas que você sabe fazer em trabalho. Saber precificar o próprio trabalho, buscar equipamento mais barato, etc.”

A sala Oi Labsonica recebeu ainda a mesa “Ibero-América, Território de encontros e conexões possíveis”, com António Miguel Guimarães (Portugal Maior), Andrés González (Circulart/Colômbia) , Eulícia Esteves (Funarte/Brasil), Felipe França Gonzalez (Fronteira Difusa/SP), Ibone Iza Aranguren (BIME PRO e Last Tour/Espanha), Marc Lloret (Mercat de Musica Viva de Vic/Espanha), Pedro Azevedo (MIL Portugal), Soco Collado (A.R.T.E. – Sounds From Spain/Espanha).

Com a diversidade de territórios, povos e idiomas, a mesa proporcionou aos ouvintes rica visão sobre mercados e oportunidades em cada região. “Em Portugal o governo decidiu impulsionar: puxar pela criatividade, porque atrás dela vêm os negócios. É uma visão artística antes da econômica”, revelou Antônio Miguel. “Queremos usar a música como um fator de atração mútua, investir para estabelecer melhores conexões culturais e artísticas com outros países, como no caso do Brasil e a participação portuguesa na SIM São Paulo”, completou.

Soco Collado sinalizou uma retomada espanhola em ações colaborativas: “Em 2008, a crise fez o governo espanhol cortar 60% do investimento em cultura. E acho que, em parte, só agora o espanhol está olhando para fora de novo, pensando em mais conexões com seus vizinhos”. Pedro Azevedo reforçou a cooperação entre os países ibéricos: “Vejo o território espanhol como um local de oportunidades. Estou fazendo um festival em Portugal que terá 30 bandas espanholas. Isso não é pouco”.

“É importante que agentes e artistas comecem a expandir seus espaços. Participar de feiras, encontros, eventos, estabelecer relações mais próximas, de mais confiança, gerar laços”, sugeriu Andrés González. “É essencial visitar e conhecer de perto esses países e como funciona o mercado deles”, completou o mediador, Felipe Gonzalez.

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